Showing posts with label Cepticismo. Show all posts
Showing posts with label Cepticismo. Show all posts

Thursday, December 30, 2010

Bad Science e Feliz 2011


No final de cada ano é costume fazerem-se balanços do ano que passou. Eu, por exemplo, costumava fazer um balanço dos filmes estreados. Este ano, contudo, não vou fazer balanços, mas vou simplesmente falar de um livro que li em 2010 (embora ele tenha sido lançado antes) e de que gostei muito. É um livro de divulgação científica chamado Bad Science (em português, Ciência da Treta), e é de Ben Goldacre.

Goldacre é um médico que se dedica em parte a chamar a atenção para as tangas das medicinas alternativas, de (alguns) nutricionistas, e até para os escândalos dentro da própria medicina. É um céptico exemplar e um comunicador extraordinário, escrevendo com uma linguagem simples, clara e divertida, mas, simultaneamente, explica as questões a fundo.

A sua abordagem nunca é simplista; por exemplo, dedica alguns capítulos a escândalos que ocorreram na medicina, mas depois dedica outros a explicar algo que raramente vejo esclarecido, e que é um erro que muitas pessoas cometem: não é por ter havido um escândalo no passado, que agora tudo o que a medicina produz é mau. Esta linha de raciocínio é até bastante perigosa, mas bastante comum. É um pouco como pensam os ursos polares do cartoon acima...

Trata-se, portanto, de um livro cuja leitura recomendo a todos.

Costuma-se também, no final de cada ano, pedir desejos para o ano seguinte. Para 2011, ocorrem-me dois: que The Tree of Life, de Terrence Malick, seja um filme extraordinário; e que Manuel Alegre não seja Presidente da República. Felizmente, a probabilidade de ambos se tornarem realidade é muito grande!

Feliz 2011!

Friday, October 1, 2010

Liberdade de Opinião vs Validade de Opinião

Há uma confusão muito comum entre liberdade de opinião e validade de opinião. A liberdade de opinião, felizmente, existe hoje em dia nos países desenvolvidos: ninguém é preso ou paga uma multa por dizer que acredita que as pulseiras do equilíbrio fazem efeito, que os remédios homeopáticos curam doenças, ou que que o Homem não foi à Lua. O problema é que, quando são confrontadas com factos claros que mostram que essas crenças não têm sentido, muitas vezes a resposta é "tenho o direito à minha opinião". Verdade! No entanto, é preciso recordar: ela não se torna válida por causa disso.

Esta tendência talvez esteja relacionada com um certo pensamento pós-moderno que procura descredibilizar a ciência e, quando chega ao limite dos limites, defende que todas as opiniões são igualmente válidas porque só dependem do ponto de vista de quem as emite. E isto não é verdade.

Discutir as pulseiras do equilíbrio ou o efeito de remédios homeopáticos (ou, até, a viagem à Lua), não é como discutir o aborto ou a eutanásia. Os primeiros temas podem ser quantificados tendo em conta factos e dados obtidos em experiências ou ensaios clínicos bem feitos; os segundos só permitem, quanto muito, que se quantifiquem as suas consequências na população, mas não a sua validade moral, que geralmente é o que está em debate. O filósofo e matemático Bertrand Russell explicitou muito bem esta diferença no seu livro Religion and Science:
While it is true that science cannot decide questions of value, that is because they cannot be intellectually decided at all, and lie outside the realm of truth and falsehood. Whatever knowledge is attainable, must be attained by scientific methods; and what science cannot discover, mankind cannot know.
É, portanto, preciso insistir no seguinte: há coisas de tal forma quantificáveis que é possível saber se estão certas ou erradas. Na introdução do livro Bad Science (em português, Ciência da Treta), o autor Ben Goldacre reforça esta ideia muito claramente:
E se, quando terminar [de ler o livro], ainda achar que discorda de mim, então sugiro-lhe o seguinte: não deixará de estar errado, mas pode ter a certeza de que o estará, só que de uma forma muito mais confiante (...).

Sunday, September 26, 2010

'extraordinary claims require extraordinary evidence'

O penúltimo episódio da série Cosmos, um dos mais espantosos de toda a série, tem o título Encyclopedia Galactica, e dedica-se à procura de vida extra-terrestre. Carl Sagan, como se sabe, era um grande defensor da existência de vida extra-terrestre; considerava as probabilidades extraordinárias tendo em conta a vastidão do Universo. Começa assim o episódio:
In the vastness of the Cosmos, there must be other civilizations far older and more advanced than ours, so shouldn't we have been visited? Shouldn't there be, every now and then, alien ships in the skies of Earth? There's nothing impossible in this idea, and no one would be happier than me if we were being visited, but has it happened in fact? What counts is not what sounds plausible, not what we'd like to believe, not what one or two witnesses claim, but only what is supported by hard evidence, rigorously and skeptically examined.
E depois acrescenta aquela famosíssima frase, uma das mais citadas do cientista:
Extraordinary claims require extraordinary evidence.
As pessoas esquecem este princípio básico da busca pela verdade quando se deixam enganar, por exemplo, pelas mais variadas teorias de conspiração, sendo a maioria completamente idiotas, imbecis e sem sentido. Quanto mais estranhas forem as afirmações feitas, maior a prova que se deve pedir por elas.

Aqui estão três exemplos de afirmações sobre as quais, pessoalmente, peço "extraordinary evidence":
  • A viagem à Lua foi uma fraude. Isto implicaria milhões de pessoas envolvidas a guardar segredos durante décadas, implicaria que os Soviéticos tivessem sido suficientemente idiotas para não terem reparado na fraude de imediato (na verdade, eles seguiram a viagem da Apollo 11 à Lua, assim como todas as outras, pelo que eles sabiam que a viagem aconteceu e como tal reconheceram-no), implicaria que todos os cientistas do mundo são idiotas por não terem percebido as "falhas científicas" dos videos (ao contrário dos iluminados que apontam falhas aos videos, que nunca são cientistas, mas que descobrem lá contradições a todas as leis da física), implicaria que os espelhos colocados na Lua que ainda hoje permitem medir a distância a que esta se encontra da Terra com uma precisão inacreditável tenham lá ido parar por magia, etc. Como se pode calcular, provas para mostrar que tudo isto é falso têm que ser absolutamente extraordinárias.
  • Os atentados de 11 de Setembro foram planeados pelos Americanos. Milhares de pessoas teriam que estar envolvidas nestes planos sem sentido. Não basta mostrar umas fotos do Pentágono sem um avião partido lá em cima (quando, com um pouco de pesquisa, a questão do Pentágono está muito bem explicada) ou umas quantas pessoas anónimas a dizer que as Torres Gémeas não deveriam ter caído com aquele impacto (como é que sabem? Que calculos fizeram?) para se provar a fraude do século. Seriam precisos estudos científicos muito aprofundados e justificações muito detalhadas e comprovadas sobre tudo o que se passou. Seriam necessárias, portanto, provas extraordinárias.
  • Energia flui pelo corpo e, quando se espetam agulhas em pontos especiais, curam-se doenças. Quais são os aparelhos que detectam essa energia? Que tipo de energia é e de que forma flui? Porque é que quando se espeta uma agulha no ponto x ajuda a curar um problema no ponto y (não vale responder que uma energia que não existe se está a redistribuir pelo corpo)? Para se acreditar em medicina deste tipo é necessário que estas respostas sejam respondidas com estudos científicos muito bem feitos. Afinal de contas, também é o que pedimos a um medicamento normal, que no seu processo de fabrico e distribuição está sujeito a esses estudos.

Saturday, September 25, 2010

Pulseiras do Equilíbrio (III)

O SkepticBlog é um excelente blog em que participam grandes nomes que dedicam parte da sua vida a promover o cepticismo e o pensamento crítico face ao mundo, de forma a ajudar as pessoas a distinguir a verdade de tretas que lhes tentam impor, sejam essas tretas materiais (pulseiras do equilíbrio) ou intelectuais (teorias da conspiração).

Apesar do tema das pulseiras do equilíbrio já estar mais que esclarecido (neste momento, só se continua a enganar quem quer), não resisto a referir este post de Brian Dunning no referido blog, por duas razões. Primeiro, porque diz algumas piadas de qualidade em resposta às tangas pseudocientíficas que vêm no site oficial das pulseiras do equilíbrio. Segundo, porque refere alguns videos interessantes sobre estas pulseiras das energias quânticas.

Os vendedores das pulseiras fazem tipicamente um truque (tão velho que já tem barbas) para mostrar aos clientes como as pulseiras de facto funcionam. Esses truques são conhecidos pelo nome de Applied Kinesiology, e estão muito bem explicados no video abaixo, onde se mostra também a facilidade com que se inventam explicações científicas para produtos inuteis.



Contudo, para quem ainda quer acreditar, pode ver o seguinte video, que mostra um vendedor de pulseiras do equilíbrio a falhar um double blind test. O teste consiste no seguinte: num grupo de pessoas que vão ser testadas, só uma possui escondido o holograma quântico das pulseiras; cabe ao vendedor descobrir quem fazendo os testes do costume, sendo que nem o vendedor nem as pessoas testadas sabem quem possui o mágico holograma.



Um double blind test é uma espécie de algodão: não engana. Estes testes retiram ao máximo a parte subjectiva a que um ser humano está sempre sujeito, o que torna a experência muito mais objectiva e fiável. São muito utilizados, por exemplo, em medicina, para testar o efeito placebo de certos medicamentos (nem os médicos nem os pacientes sabem quem tomou o verdadeiro medicamento). Desta forma, pode-se saber o seu efeito real, pois quando o algodão da ciência passa com cepticismo e pensamento crítico, a verdade torna-se clara.

Sunday, July 18, 2010

Conferências de Brian Brushwood sobre Pseudo-Ciência


Como disse Carl Sagan, o grande antídoto para a pseudo-ciência é o cepticismo e ter um entendimento básico dos métodos científicos. Isto é o essencial para que se torne evidente que as tretas que nos vão tentando impor (desde a astrologia à homeopatia, passando pelos ovnis e pelas teorias da conspiração) são de facto falsas.

No entanto, nem sempre é fácil desmascarar estes charlatães profissionais, mesmo quando é óbvio que o são. Por isso, não são os cientistas, que não estão habituados aos típicos truques sobre como enganar o público, quem eles mais receiam. Não me lembro se foi o Richard Dawkins ou o Michael Shermer que uma vez disseram que, nesses espectáculos onde se supostamente se demonstram capacidades telepáticas e outras situações análogas, o grande medo desses aldrabões é ter alguém como o James Randi na primeira fila.

Randi é um mágico profissional que, durante a sua vida, procurou denunciar aldrabices e transmitir uma cultura de cepticismo ao público. E por isso é que são os mágicos, pessoas com a mente altamente treinada para detectar truques e ilusões que enganam quem está do outro lado a assistir, que esses charlatães verdadeiramente receiam.

Depois de Randi, outros mágicos têm procurado seguir o mesmo caminho de não só fazer espectáculos de magia, mas também de denunciar as tretas que se vão tentando impor à sociedade e nas quais muita gente acredita. Um deles é Brian Brushwood que, numa série de conferências intitulada Scams, Sasquatch and the Supernatural, explica, entre outras coisas, porque é que não somos visitados por ovnis, porque é que a memória é tão facilmente enganada, o mistério dos crop circles, a aldrabice de algumas medicinas alternativas e como às vezes é difícil ter uma noção intuitiva das leis das probabilidades.

Aqui ficam os links para as várias partes da conferência: