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Friday, November 19, 2010

Há (e cada vez mais) perguntas fáceis

Esta notícia do Expresso sobre as provas de aferição de Matemática e Português deixa qualquer um chocado:
Sete em cada dez alunos do 6.º ano não conseguem colocar por ordem alfabética uma lista de nove palavras começadas por 'm'.

No teste do 4.º ano, a identificação de um conjunto de palavras graves ou do sujeito e predicado em frases aparentemente simples ("O homem enviou uma carta à lua" e "A lua e as estrelas sorriram") também causou mais problemas do que seria de esperar. No caso deste último exercício, 61% dos alunos não responderam ou não conseguiram ter a cotação total.

Em relação à prova de Matemática do 6.º ano, a Sociedade Portuguesa de Matemática chegou a considerar que metade das perguntas correspondia a matéria do 1.º ciclo (até ao 4.º ano). Era o caso da questão em que se pedia para calcular um quarto de oito. O próprio Gave diz tratar-se de um "item aparentemente elementar". Mas só metade dos alunos acertou.
O título da notícia - Já não há perguntas fáceis - lembra-me uma ideia que algumas pessoas têm sobre esta questão (não estou a dizer que é essa a ideia do autor da notícia ao ter colocado este título): como a maioria dos alunos já não consegue responder a estas perguntas, isso significa que elas deixaram de ser fáceis no contexto escolar actual, e como tal a avaliação e a exigência têm que se adaptar a isso.

Não é verdade: estas perguntas continuam a ser estupidamente fáceis para os anos de escolaridade em que estão a ser colocadas, e se os alunos não conseguem responder correctamente, então é necessários que se lhes transmita critérios mais apertados de exigência e de rigor, e não que esses sejam diminuidos na avaliação.

Depois, quando é chegada a altura de avaliar, a questão que se tem de ter em mente é a seguinte: o que está a ser exigido é suficiente para, no futuro, preparar pessoas capazes de pensar e de exercer uma profissão? Caso a resposta seja negativa, então essa avaliação é uma farsa, independentemente da percentagem de alunos que consegue responder correctamente às questões.

Monday, July 19, 2010

Visões sobre a utilização da calculadora no ensino básico ouvidas no encontro da SPM em Leiria


Estive em dois dos três dias do encontro da Sociedade Portuguesa de Matemática, em Leiria, realizado nos dias 8 a 10 do presente mês, durante os quais tive oportunidade de ouvir várias visões sobre a utilização da calculadora nas disciplinas de Matemática em turmas do ensino básico.

Uma das visões consiste na proibição de se utilizar da calculadora na sala de aula. Desde os testes aos exercícios que se fazem na aula ao longo do ano, os alunos não deviam poder utilizar de todo a calculadora, talvez exceptuando um ou outro caso pontual, em que fosse devidamente autorizada.

Outro ponto de vista que tive oportunidade de ouvir propunha que a calculadora devesse ser utilizada para cálculos em que é de facto útil utilizá-la, ou seja, quando é mais fácil e rápido do que fazer o cálculo à mão ou de cabeça.

Esta visão parece-me preocupante, por duas razões. Primeiro, porque para os alunos aprenderem a distinguir entre os cálculos que se fazem mais rápido de cabeça e os que se fazem mais rápido na calculadora, é preciso praticarem "à mão" muito de ambos. Se um aluno puder sempre usar calculadora, nunca irá aprender a distinguir 50*27*2 de 12*17*6 em termos de rapidez de cálculo mental.

A segunda razão é que é perigoso afirmar que se deve sempre permitir aos alunos utilizar os métodos mais fáceis e rápidos. É evidente que ninguém, no quotidiano, vai fazer 253*439*13 à mão se tiver uma cálculadora ao lado, mas isso não significa que o mesmo se aplique a um aluno. Seguindo esta lógica, nas disciplinas de Análise ou Cálculo de uma faculdade, só se pediria aos alunos para fazer primitivas de constantes, polinómios ou exponenciais (sem funções compostas), que são rápidas de fazer de cabeça; primitivas por partes ou por substituição ficariam reservadas para programas de computador ou calculadoras avançadas (que hoje em dia já não são raras) fazerem.

Finalmente, a professora Liping Ma apresentou uma visão interessante acerca da utilização das calculadoras, mas, na minha opinião, sem aplicabilidade prática numa sala de aula portuguesa. Liping Ma disse que, de vez em quando, os alunos deveriam ter acesso a calculadoras, mas não as deveriam utilizar como uma ferramenta, mas sim como um brinquedo. Por outras palavras, as calculadoras não podiam substituir o cálculo manual em que se praticam os algoritmos, mas simplesmente ajudarem os alunos a confirmar as suas contas e a perceberem as suas potencialidades.

Esta ideia lembra-me uma história contada por Nuno Crato no Prós-e-Contras de um colégio Norte-Americano em que os professores não podiam vigiar provas, pois se um aluno fosse apanhado a copiar, os próprios colegas o colocariam fora da sala. Também esta ideia é interessante, mas, como se pode calcular, não se poderia aplicar numa sala de aula portuguesa, pois ninguém a cumpriria. Ambas requerem algo que, actualmente, os alunos portugueses não têm: responsabilidade, esforço e vontade de aprender.

Wednesday, July 14, 2010

Ensino Básico no caminho certo?


A Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM) tem vindo a dizer desde há já algum tempo que os exames de matemática não são comparáveis de ano para ano, mudando constantemente de dificuldade. Não sei se foi o ano passado ou se foi há dois ou três anos, o Ministério da Educação reagiu a esta crítica da SPM dizendo que não é nada disso que se passa, e que na verdade as provas têm sempre a mesma dificuldade e que a subida de notas dos alunos que se revelou nos anos anteriores era consequência das alterações nos programas e da melhor preparação dos alunos.

Como é evidente, ninguém acreditou nisso, talvez à excepção de uma suposta "especialista" em exames nacionais entrevistada pelo Público há algum tempo (infelizmente já não consigo encontrar a entrevista original, mas quanto a isso não há melhor do que ler um texto [parte1 - parte 2] de Filipe Oliveira, que também inclui excertos da entrevista original). À parte dessas excepções, todos sabemos que a SPM tem razão quando diz que os exames têm mudado de dificuldade de ano para ano. E a prova de que a SPM está certa é que os comentários que faz sobre a exigência de cada exame estão sempre em conformidade com as notas que passado algumas semanas são lançadas. O exemplo do exame nacional de 9º ano deste ano foi notável, pois a SPM aplaudiu o aumento de exigência e fez inclusivé bastantes elogios à prova. Consequência: as notas baixaram.

Neste artigo que acabo de citar, Miguel Abreu, o novo presidente da SPM que acabou de suceder a Nuno Crato há uns dias, diz algo absolutamente fundamental no que diz respeito a exames nacionais, embora seja uma coisa de que muita gente se esquece: "Não devem ser os exames a adaptar-se aos alunos (...). O que se tem que fazer é trabalhar para que os alunos obtenham positiva em exames com um nível de exigência adequado e isto consegue-se com um melhor ensino". Resta saber se este caso particular do exame nacional do 9º ano de 2010 é apenas uma gota no oceano, ou se o ensino básico vai, de facto, no caminho certo.