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Thursday, February 24, 2011

Geração à Rasca?


Ontem, enquanto passava pela Fnac do Colombo, reparei que João Duque, economista e presidente do ISEG, estava a participar numa conferência no Café Fnac. O tema era o filme Wall Street e a sua sequela, ambos de Oliver Stone, e as suas relações com o que financeiramente se passa na realidade.

A certa altura, já desviando-se do tema central, João Duque fez uma intervenção notável sobre a chamada "Geração à Rasca". Este movimento da geração em que me incluo tem gritado que somos uma geração à rasca porque é difícil arranjar emprego, porque os empregos não são definitivos, porque os salários não são os pretendidos, etc.

Contudo, como João Duque recordou e muito bem, estas características não são únicas desta geração. Os jovens da geração antes da sua partiam quase todos para a guerra, onde se arriscavam a perder a vida. O próprio João Duque, segundo relatou, ingressou no Ensino Superior numa altura em que só 1 em cada 4 alunos do Ensino Secundário lá podiam entrar; pelo contrário, actualmente há mais vagas do que alunos, sendo o acesso bastante fácil para quem termine o 12º ano. Para além disso, sentiu dificuldade em arranjar emprego, até porque não era aceite sem ter cumprido o serviço militar obrigatório, acontecendo que só depois dos 40 anos adquiriu um emprego fixo garantido.

É, portanto, curioso verificar que a presente geração não está mais à rasca do que as gerações anteriores, embora se insista muito que sim. No entanto, como bem apontou João Duque, existe uma grande diferença: esta geração está especialmente à rasca porque lhes foi dito, mesmo que indirectamente, que nunca o estariam. A escola que temos é um desses exemplos, embora mais se possam arranjar: com o facilitismo crescente do Ensino Pré-Universitário (embora ao mesmo tempo se considere quase um génio quem tem 10 a Matemática, como referiu João Duque, hiperbolizando) e com a facilidade com que se ingressa no Ensino Superior, deu-se a ideia de que a vida é fácil.

A tese, cada vez mais proibida e politicamente incorrecta, de que a escola fácil não prepara os alunos para a vida difícil adquire um significado ainda mais relevante quando se lêem os protestos desta "Geração à Rasca". A escola falhou na sua função, porque o género de obstáculos que aparecem aos jovens que estão à procura de emprego (onde brevemente me irei incluir) já deveriam ter aparecido dez anos mais cedo, para que agora estivessem preparados para os ultrapassar.

Saturday, January 22, 2011

Caixas de comentários


As caixas de comentários de sites muito visitados estão para a internet mais ou menos como os esgotos estão para as cidades. É absolutamente deprimente ler a maioria do que se escreve nas caixas de comentários de sites como o Expresso ou o Público.

A internet é uma das coisas mais fantásticas que surgiram nos últimos anos, mas, como é evidente tudo tem problemas. Em particular, a maioria das pessoas olha para a internet como um meio para se comportarem de uma forma que não podem fazer na realidade: protegidas pelo facto de já não serem pessoas umas para as outros, mas meros nome (reais ou fictícios, é praticamente irrelevante), dizem as maiores barbaridades que lhes vêm à cabeça.

Descobrem-se, pois, as coisas mais assustadoras quando se lêem este tipo de caixas de comentários. Por exemplo, o insulto fácil dirigido às pessoas, e não aos seus argumentos, ocorre constantemente nas crónicas dos comentadores dos jornais. Da mesma forma, ler as notícias sobre a morte de Carlos Castro é igualmente assutador: ninguém parece minimamente preocupado com o facto de ter havido um assassinato brutal, voando apenas comentários homofóbicos em todas as direcções.

Sempre que há notícias sobre ciência, a situação também não é a melhor: a crise parece ser desculpa para ignorar o conhecimento. Ainda há pouco tempo, quando se noticiava um eclipse, os comentários eram do estilo "eles é que nos eclipsam o dinheiro todos os meses!". Vontade de discutir alguma coisa minimamente relacionada com as noticias científicas simplesmente não existe, dominando o impulso de mandar umas bocas básicas que desprezam o conhecimento científico.

E outras coisas preocupantes descobrem-se: por exemplo, Mourinho é odiado por muitos em Portugal. A mim acusam-me muitas vezes de não ser patriota porque estou constantemente a chamar a atenção para o que está mal em Portugal. Contudo, sou-o completamente naquilo que é relevante: em particular, chamo muitas vezes a atenção para os extraordinários exemplos que Portugal tem no estrangeiro, seja na arte, na ciência, no desporto, ou em qualquer área.

Mourinho é um dos expoentes máximos desse sucesso, transportando consigo muitas coisas que a maioria dos portugueses não tem nem quer ter: vontade, ambição, trabalho, dedicação, esforço e, consequentemente, sucesso. No entanto, apesar de aparentemente os portugueses se orgulharem de Mourinho, quando se lêem as caixas de comentários de noticias sobre derrotas suas (ou situações em que Mourinho sai prejudicado), percebe-se que existe um grande ódio secreto (motivado por inveja?) ao treinador português.

Ora aqui está um problema que ou se corta pela raiz (acabar com os comentários nos sites sérios) ou que dificilmente terá fim à vista...

Wednesday, January 12, 2011

O segredo dos melhores países do mundo (5): conclusão


Em jeito de conclusão, e recordando um pouco o que foi dito nos textos anteriores sobre este tema, deixo uma lista daquelas que considero ser as principais mudanças necessárias para que Portugal possa sair da crise social e financeira em que se encontra.
  • É necessário mudar as mentalidades: como se viu, os nórdicos estão conscientes de que, por vezes, é necessário trabalhar durante mais anos, ou fazer outro tipo de sacrifícios para que o futuro possa ser melhor; não basta ir protestar contra as medidas de austeridade (embora às vezes isso seja necessário), também é preciso entender a sua necessidade e lutar para que, no futuro, elas não voltem a ser precisas.
  • É necessário saber pensar a longo prazo: os cidadãos querem ver resultados imediatos, por isso exigem medidas nas áreas que permitem resultados visíveis no curto prazo; os políticos querem ganhar eleições, por isso pensam a cada legislatura; é preciso que os cidadãos comecem a pensar a longo prazo, exigindo que os políticos pensem nas gerações futuras.
  • É necessário diminuir drasticamente a corrupção: como é que isso se consegue é incerto, mas não o vejo a acontecer sem antes estoirar um escândalo a sério que provoque uma mudança generalizada nas pessoas da política e nas suas atitudes; se essa for a única hipótese, então que aconteça de uma vez por todas.
  • É necessário estar consciente da realidade das dificuldades que se enfrentam: a negação desta é condição suficiente para a incapacidade de melhorar; o primeiro passo é reconhecer o que está mal e a necessidade de mudança.
A estas necessidades juntar-se-iam outras, mas não vale a pena continuar. A ideia ficou explícita, importando ainda dizer que o caminho é longo e difícil, mas possível, com esforço e dedicação. Talvez um dia, em que as ideias desta lista estejam alcançadas, também partilhemos esse "segredo" que só pertence aos melhores países do mundo: a confiança.

Nota: fotografia tirada às 23h.

Tuesday, January 11, 2011

O segredo dos melhores países do mundo (4): reforma


Não foi só a Finlândia que, nos anos 90, reconheceu que, no meio de uma crise, não havia dinheiro para sustentar um estado social que estivesse em toda a parte. Na verdade, algo semelhante aconteceu na Suécia, como relata a sindicalista Ursula Berge:
"(...) há 15 anos a Suécia estava numa situação económica muito difícil. Tínhamos um grande défice, uma grande dívida internacional e 30 por cento do Orçamento do Estado ia para o sistema bancário porque os empréstimos eram enormes. O Governo social-democrata da altura chegou à conclusão de que isto não era sustentável." A receita foi a inevitável: corte nas despesas do Estado.
Mas essa não foi a única medida tomada pelo Governo para combater a crise: "a isso somou-se a reforma do sistema de pensões".

Acontece que este tema das pensões e das reformas é tabu em Portugal. Se alguém diz publicamente que não é sustentável este sistema em que os trabalhadores actuais pagam as reformas dos que estão actualmente reformados, é de imediato apelidado de neoliberal que quer destruir o Estado Social. Pois bem, os "neoliberais" suecos perceberam que não havia alternativa:
Em 93, o que foi dito foi que cada pessoa devia pagar pelo seu próprio sistema de pensões, que assim deixa de estar sujeito a flutuações económicas ou demográficas.
Este sistema, para além de garantir maior sustentabilidade, tem uma grande vantagem (que, evidentemente, para os trabalhadores da Europa Ocidental parece ser uma enorme desvantagem):
O novo sistema encoraja as pessoas a trabalhar mais anos — quanto mais tempo trabalharem, maior a reforma.
E, já que se fala de reformas, parece fazer sentido comentar os recentes protestos em França contra o aumento da idade da reforma. Em Portugal, quando se diz que é inevitável ajustar esta idade pelo facto de o número de reformados estar a aumentar graças ao aumento da esperança média de vida, surge mais uma vez o apelido de neoliberal que não tem respeito pelos trabalhadores. Esta sindicalista sueca, contudo, tem outra visão sobre a questão:
Ursula confessa que os protestos em França contra o aumento da idade da reforma são, para ela, “uma coisa estranha”, porque lhe parece óbvio que “se vivemos mais tempo, temos de trabalhar mais tempo”.
Serão estes suecos também uns neoliberais sem escrúpulos? Não me parece: estão é conscientes da realidade e do significado da expressão responsabilidade social.

Finalmente, termino mais uma vez com essa capacidade notável, que tanto nos falta, que é conseguir pensar a longo prazo:
Depois de uma fase de transição (as pessoas que têm hoje entre 40 e 50 anos são as mais prejudicadas porque pagam para os dois sistemas), o sistema de pensões adoptado pela Suécia deverá garantir estabilidade às futuras gerações. “Eu faço parte da geração que será prejudicada, admite Ursula, “mas os meus filhos vão beneficiar”.

Monday, January 10, 2011

O segredo dos melhores países do mundo (3): onde está o estado?

Os países nórdicos têm um estado social muito forte.
[Na Dinamarca] não pagamos hospitais, nem escolas, e quando estamos no liceu ou na universidade recebemos dinheiro para estudar. Ser estudante é quase como um emprego. O Governo dá-nos dinheiro para estudar, o suficiente para vivermos e pagarmos a renda.
No entanto, importa referir que esse estado social não foi adquirido a qualquer custo. Durante os anos 90, o Norte da Europa foi assolado por uma crise fortíssima. Em Portugal, ouvimos os Alegres e os Soares constantemente a dizer que o estado social tem que estar lá sempre para garantir tudo aos cidadãos. Responder à questão "há dinheiro?" parece ser um pormenor dispensável para estas pessoas.

Pelo contrário, para os políticos (e para as pessoas em geral) do norte europeu, por muito importante que o estado social seja (e é, como já vimos), há uma coisa mais importante: a realidade; quando não há dinheiro, nalguma coisa tem que se cortar. O que fez então a Finlândia para sair da crise dos anos 90?
Criar uma economia “baseada no conhecimento e na tecnologia” (...). Para isso, o Estado investiu em investigação (é o terceiro país do mundo que mais investe nesse sector, a seguir à Suécia e a Israel). E cortou onde? “Em praticamente todas as áreas à excepção da investigação e educação, que foram as únicas em que o investimento aumentou.
Em suma, há que saber assumir que o dinheiro não é infinito e que, no meio de uma crise, é necessário escolher áreas essenciais. Os políticos portugueses ainda não tiveram essa coragem.

Finalmente, repare-se na estratégia que é investir em educação no meio de uma crise. Como se sabe, os efeitos do investimento em educação são lentos, mas mais uma vez estes países souberam pensar a longo prazo, e não apenas para cada legislatura. Contudo, os efeitos estão aí: passados 15 anos, a Finlândia tem aparecido, ano a após ano, a liderar os rankings do PISA, tendo sido apenas recentemente ultrapassada pela Coreia do Sul.

Nota: esta foto é excepção ao que disse no primeiro post desta série sobre os países nórdicos, sendo a única que não foi tirada por mim, pois nunca estive na Finlândia.

Sunday, January 9, 2011

O segredo dos melhores países do mundo (2): confiança


Durante a sua viagem pelos países nórdicos, Alexandra Prado Coelho concluiu, pela quantidade de vezes que ouviu a palavra, que o um dos seus "segredos" é a confiança:
E não falta muito para que, na conversa, surja aquela palavra: confiança. Já a ouvimos muitas outras vezes nesta viagem pelos países nórdicos. (...) “O grande poder nesta sociedade é a confiança. Em relação ao Estado e em relação uns aos outros. Se se perde essa confiança, não se pode funcionar como sociedade. Todas as crises surgem quando essa confiança se quebra.”
Mas, de facto, essa não foi a única vez que a ouviu:
A palavra “confiança” tinha irrompido nesta viagem pela primeira vez na Dinamarca, numa edição especial da revista Monday Morning intitulada “O Segredo Dinamarquês: como é que a Dinamarca se tornou numa das nações mais competitivas do mundo”. “Qual é o segredo dinamarquês?”, escreve o editor Erik Rassmussen. “A resposta curta é ‘confiança’.” (...) “A confiança também explica por que é que os dinamarqueses aceitam a pesada carga fiscal que têm. É que vêem os impostos como um investimento a longo prazo numa sociedade sustentável e confiam que os políticos vão gastar de forma adequada o dinheiro desses impostos.”
Os exemplos sucedem-se na reportagem da Pública, mas ficaram bem resumidos nestas frases. Em suma, significam o seguinte: os nórdicos confiam no Estado e nos políticos. Em Portugal, essa confiança está desfeita em nada. E com razão: enquanto os países nórdicos estão entre os menos corruptos do mundo, em Portugal os escandalos de corrupção financeira sucedem-se uns aos outros, acabando sempre por nunca apontar culpados. Os portugueses fazem bem em não confiar no destino do dinheiro dos seus impostos. O problema é que, sem essa confiança, a sociedade não pode funcionar.

De qualquer forma, o facto da corrupção ser baixa só garante que o dinheiro não tem um destino mau e ilegal. É necessário garantir mais que isso: a boa gestão desse dinheiro. Será que ele serve para construir TGVs desnecessários e investimentos análogos? Vejamos o que aconteceu na Noruega.

Este país do Norte da Europa teve uma grande sorte que o diferencia dos países vizinhos: descobriu petróleo. De qualquer forma, a sorte não é condição suficiente para garantir uma boa gestão de dinheiro. Porém, de acordo com Steinar Holden, da Universidade de Oslo,
Há cerca de 15 anos decidimos pôr todo o dinheiro do petróleo num fundo, e usar apenas quatro por cento por ano — um número que corresponde ao rendimento que esperamos que o fundo tenha. Se gastarmos apenas esses 4 por cento, o fundo nunca diminuirá, e assim as gerações futuras beneficiarão do petróleo tanto quanto nós hoje.
É certo que, neste caso, não se trata de dinheiro de impostos, mas o objectivo é apenas exemplificar a forma como os nórdicos olham para a gestão do dinheiro: a pensar na poupança, no longo prazo e nas gerações futuras. Qualquer semelhança com Portugal é mesmo pura coincidência.

Saturday, January 8, 2011

O segredo dos melhores países do mundo (1): introdução


Este é o título de uma reportagem de Alexandra Prado Coelho sobre os países do Norte da Europa, publicada na revista Pública de dia 19 de Dezembro de 2010, e que pode ser lida aqui. O título não se baseia numa opinião pessoal da autora, mas nos rankings sobre qualidade de vida feitos por jornais e revistas prestigiados durante os últimos 10 ou 15 anos, que de forma recorrente colocam estes países entre os melhores do mundo.

Em Portugal olha-se para os nórdicos com um misto de admiração e ódio. A admiração que a maioria dos portugueses nutre por estes países baseia-se em falsas percepções, em particular a de que lá é o paraíso pois o estado tudo garante (o sonho da grande maioria dos portugueses). Como veremos, isso não é bem assim, apesar de os nórdicos terem de facto um estado social muito forte, mas que não se conquista a qualquer custo. Quanto ao ódio, esse tem evidentemente que ver com o clima: para um português, o clima é o factor preponderante para a qualidade de vida, sendo que tudo o que seja menos de 30º no Verão já é um mau clima.

Existe então a tentação de fazer comparações com Portugal que não fazem qualquer sentido. "Ah se os nórdicos fazem assim, nós também deviamos fazer", ouve-se de tempos a tempos. Estas declarações, no entanto, não têm em conta que não estamos ao mesmo nível deles. Até lá, há um caminho longo e duro a percorrer, se o quisermos e conseguirmos tomar.

Devido à qualidade da reportagem de que falei, e também graças ao meu fascínio por estes países, irei escrever uma série de textos em que destaco as ideias-chave focadas por Alexandra Prado Coelho, procurando divulgar o que fazem no Norte da Europa, para que se possa ver como é tão diferente do que acontece em Portugal. As fotografias que acompanham os textos foram todas tiradas por mim ou por amigos meus, na Suécia e na Noruega.

Monday, January 3, 2011

Gozar o dia


Um dos oradores do curso Human Spaceflight and Exploration que frequentei na Suécia durante o passado mês de Agosto era um alemão chamado Hansulrich Steimle, cuja profissão é seleccionar astronautas para a ESA e planear missões espaciais tripuladas. Numa palestra em que a respectiva oradora faltou, o Sr. Hansulrich substitui-a. Como não estava preparado para essa palestra adicional, esta decorreu num estilo mais improvisado e informal.

A certa altura, o Sr. Hansulrich explicava a importância de definir objectivos (saber exactamente o que é que definimos como sucesso e como fracasso) antes da missão e de planear os "what if?". Quando tudo corre como planeado, não há problema, mas, por exemplo, e se um dos astronautas adoecer?

Esta lição, explicou Hansulrich Steimle, não é apenas válida para missões espaciais, mas também para a própria vida. E, no estilo informar com que a palestra estava a decorrer, acrescentou: "imagine that you plan to go out with a girl; but what if she says no? Are you going to stay home crying?".

Na plateia todos riram, mas a verdade é que grande parte da juventude de hoje não consegue entender esta simples mensagem. O que é cool é "aproveitar o momento", "gozar o dia", "viver a vida" ou outros clichés repetidos até à exaustão. Esta juventude de que falo cita frequentemente o carpe diem sem fazer a mínima ideia do que ele é, e invertendo por completo a sua filosofia. Para estes jovens, o carpe diem é ir andar de mota a 200km/h para a auto-estrada, ou ir enfrascar-se todos os fins-de-semana, porque assim é que se está a "viver a vida". O problema é que esta definição de viver foi inventada por essas pessoas para quem a palavra responsabilidade não consta no dicionário.

Não por acaso, o famoso anúncio da Sumol - Mantém-te original -, dirigindo-se especificamente aos jovens, colou em cartazes frases como "um dia vais pedir para baixar o volume da música e deixar a tua guitarra a apanhar pó" (ouvir música baixa e não tocar guitarra não é cool), "vais-te tornar socialmente evoluído e economicamente consciente" e "entrar às 9 e sair às 6" (essa coisa de ter um trabalho e condições económicas para construir família também é muito pouco cool); enfim, "vais ser mais triste". *

Neste contexto, importa ler o que Inês Pedrosa escreveu na passada edição da revista Única:
O popular lema "goza o dia!" serve a cães, moscas e jacarés, que não sabem de onde vêm nem para onde vão. Para seres humanos, esperar-se-ia uma redomendação como: "lembra-te e faz-te lembrar". (...) Esquecemos que gozar o dia é também recordar a noite de onde ele veio e antecipar a noite para onde ele vai...
De facto, os animais sim estão sujeitos à condição de "viver a vida". Dominados pelos instintos naturais, não lhes resta mais do que decorrer cada dia, sem quaisquer responsabilidades, inconscientes do passado e do futuro, e sem relembrar as importantes lições do dia de ontem que ajudam a planear o de amanhã.

Contudo, nós seres humanos temos responsabilidades muito mais ambiciosas. Dotados de memória, de razão e de raciocínio lógico-dedutivo, sabemos colocar objectivos, planear o dia, o mês e o ano que temos pela frente, enquanto relembramos os que passaram, tentando discernir o que fazer para repetir experiências que gostámos de ter e para evitar aquelas que foram mais desagradáveis. Por essa razão, somos os únicos que se podem dar ao luxo de não se limitarem a viver a vida.

Em certa medida, podemos construí-la.

* Na verdade, há uma frase neste anúncio ainda mais inacreditável que qualquer uma destas, mas omiti-a porque não está directamente relacionada com o tema do texto: "um dia vais achar que a tua intimidade não é para todos"; contudo, essa característica tão comum da juventude actual, não saber separar o que é privado do que é público, daria matéria para outro texto...

Sunday, November 14, 2010

Nivelar por baixo


Um dos problemas de Portugal é a obsessão por aqueles que são piores que nós. Esta obsessão poderia ser positiva, caso tivesse como objectivo perceber os seus problemas para que não cometêssemos os mesmos erros. No entanto, não é isso que se passa: esta obsessão pelos piores deve-se ao facto de, por alguma razão, nos sentirmos bem por não sermos o último dos últimos.

Esta tendência muito portuguesa para nivelar por baixo os nossos objectivos é provavelmente uma das causas do estado em que nos encontramos. A verdade é que não há razão para ficarmos satisfeitos por haver alguns piores que nós; deveríamos, isso sim, ficar por um lado desiludidos por haver tantos melhores que nós, e por outro motivados para melhorar.

Quanto a formas de melhorar, só há uma: nivelando por cima. Olhar para aqueles que são melhores que nós e tentar atingi-los, mesmo que pareça (ou até que seja) impossível lá chegar. Na minha opinião, esta ideia aplica-se tanto de um ponto de vista pessoal como global: é colocando objectivos acima das nossas capacidades que podemos dar o nosso melhor. Mesmo que não cheguemos lá, teremos chegado mais longe do que colocando objectivos medianos. Esta é a forma de evoluir.

Sunday, October 10, 2010

Sul da Europa

Há cerca de dois ou três anos, num Prós e Contras sobre educação, uma professora pedia para que se olhasse para os rankings da OCDE sobre performance em leitura, matemática e ciência com o mapa da Europa na cabeça. Olhando para os países pior classificados, vai-se chegar a um padrão que se repete nas várias áreas e nos vários anos: Turquia, Grécia, Itália, Portugal, Espanha... o Sul da Europa...

Com isto, a referida professora queria chamar a atenção para o facto de o nosso problema ser em grande parte cultural, e que por isso levaria várias gerações a mudar. Devo dizer que concordo com esse argumento. Aliás, o problema não está só na educação: veja-se por exemplo o termo PIGS, utilizado em finanças para referir quatro países com uma enorme dívida externa: Portugal, Itália, Grécia e Espanha... mais uma vez, o Sul da Europa...

Mas o que está na génese deste atraso sul europeu? Se apenas quisermos ter uma ideia geral do que poderá causar o problema não são precisos grandes estudos sociológicos, bastando apenas uma visita (ou, de preferência, uma estadia um pouco mais prolongada) aos países do Norte e Centro da Europa. A organização, a pontualidade, a responsabilidade, o empenho e o respeito (pelos outros e pelas regras) saltam facilmente à vista. E, como é evidente, um país organizado e com pessoas responsáveis (políticos com a vida pública exposta, trabalhadores conscientes de que no trabalho é para trabalhar, etc.) tem o primeiro passo dado para desenvolver uma educação de qualidade e uma economia estável.

Em Portugal (e, pelos vistos, noutros países do Sul da Europa) a história é diferente. Veja-se uma situação que ocorre comigo recorrentemente. Tenciono frequentar o mestrado no estrangeiro, e as minhas opções principais são a Universidade Técnica de Delft (Holanda) e o Instituto de Tecnologia Real (Suécia, Estocolmo). Quando digo isto a alguém, raramente as pessoas se preocupam em saber qual a qualidade da educação nestas Universidades, o contacto que têm com empresas prestigiadas, ou a facilidade com que colocam alunos no seu próprio mercado de trabalho ou no europeu. No entanto, há uma preocupação que domina: na Holanda o tempo é nublado e chuvoso e na Suécia faz frio.

Em tom de brincadeira séria, apetece dizer que parece que é esta a grande preocupação dos portugueses (e, possivelmente, do restante sul europeu): o clima. Não por acaso, a chuva é desculpa para tudo em Portugal. Uma pessoa minha conhecida estrangeira costumava dizer que a coisa que lhe fazia mais impressão nos portugueses era que quando chove ninguém faz nada. Não por acaso, quando chove ao fim de semana, a imagem que tenho do típico português é que, mesmo que tenha um monte de trabalho no escritório ao lado, não se levanta do sofá nem descola os olhos da televisão (apesar de também não chover no escritório). O típico português fica espantado como é possível viver sem o insuportável calor do nosso Verão para que possa passar Agosto inteiro na praia (das poucas coisas que não pára no Portugal de Agosto).

O problema é que, como se tem visto em questões como as duas aqui referidas (educação e economia), o típico português (e sul europeu) devia estar mais preocupado com coisas sérias...