Showing posts with label Espaço. Show all posts
Showing posts with label Espaço. Show all posts

Monday, February 21, 2011

Tenha o seu próprio satélite! (astroPT)

Texto escrito para o site astroPT


A Scientific American deste mês tem um artigo dedicado aos CubeSats, satélites de reduzidas dimensões que se estão a tornar cada vez mais populares na investigação científica, em grande parte graças ao avanço da microelectrónica. Estes satélites têm uma grande vantagem: o custo.

Para além das razões óbvias na redução dos custos (peso reduzido, etc.), há uma vantagem adicional em relação aos restantes “microsatélites”: as dimensões e o peso dos CubeSats, assim como outras especificações, são estandartizadas, o que facilita os seus lançamentos em massa. Cada CubeSat deve ser um cubo com 10 cm de lado e não ultrapassar 1 kg.

Esta uniformização, que trouxe a grande vantagem do custo reduzido, acabou por ter uma série de consequências positivas, em particular a seguinte: muito mais equipas de investigação, e até de estudantes universitários, podem agora ter os seus projectos espaciais. Para além disso, pode-se fazer investigação mais experimental e arriscada, visto que o dinheiro perdido em caso de falha não é particularmente grande.

Espera-se que brevemente o custo do equipamento e lançamento se reduza a 10 mil dólares, o que poderá fazer com que projectos amadores também entrem em cena. Poderão mesmo vender-se kits de CubeSats para montagem por esse preço, com lançamento incluido. Talvez no futuro cada pessoa interessada possa ter o seu próprio satélite!

Friday, January 7, 2011

Ligações Cósmicas

Ler As Ligações Cósmicas, de Carl Sagan, deixa um ligeiro travo a desilusão. Por um lado, é um livro algo datado, em virtude de ter sido escrito em 1973, quando o conhecimento sobre espaço ainda estava muito atrás do actual: só nessa altura se começava a conhecer Vénus e as luas de Marte, não tendo ocorrido ainda esse verdadeiro big bang de conhecimento espacial que as viagens das Voyager forneceram.

De qualquer forma, não é isso que deixa o travo a desilusão, mas sim o facto do livro ser demasiado especulativo. Nas suas obras, Carl Sagan nunca tem medo de especular (em Cosmos afirma precisamente que "não teremos medo de especular, mas teremos o cuidado de diferenciar especulação de facto); o problema aqui é que a especulação é feita com demasiado pormenor, e como tal deixa a sensação de que o mais provável é o futuro da Humanidade no espaço não ter absolutamente nada que ver com o que lá está descrito.

Mesmo assim, algumas das interessantes ideias que Carl Sagan viria a desenvolver em livros posteriores já estão presentes em As Ligações Cósmicas. Uma dessas ideias sobre a importância da exploração especial está relacionada com o facto de, actualmente, já quase não haver nos países desenvolvidos na Terra quem sonhe com o que está mais além, pois tudo é conhecido. No futuro, no entanto, poderá haver um transporte para as estrelas em que os jovens sonham embarcar, fazendo regressar o sonho da descoberta, tão característico da nossa espécie.

Durante três gerações de seres humanos houve (...) um som que chamava a atenção, uma chamada que atravessava a noite, fazendo notar que havia uma maneira não muito difícil de deixar Twin Forks, Apalachicola, ou Brooklyn. Era o gemido do transporte de mercadorias da noite, tão pontual como um pregão. Era uma advertência constante de que havia veículos, engenhos, que nos podiam transportar a altas velocidades para fora do nosso pequeno mundo, para um universo mais vasto, de florestas e desertos, orlas costeiras e cidades.

Especialmente nos Estados Unidos, mas em quase todo o mundo, poucas pessoas viajam hoje de comboio. Há gerações completas a crescer que nunca ouviram essa chamada do apito. O momento é de homogeneização do mundo, em que as diferenças das sociedades estão a desaparecer, em que está a emergir uma civilização global. Já não há na Terra lugares exóticos com que sonhar.

E por este motivo mantém-se hoje uma maior e mais aguda necessidade de um veículo, um engenho que nos leve a outro local. Não a todos; só alguns - aos desertos da Lua, ao antigo litoral de Marte, às florestas do firmamento. Há algo de reconfortante na ideia de que um dia alguns representantes da nossa pequena aldeia terrestre poderão aventurar-se às grandes cidades galácticas.

Ainda não há comboios interstelares ou engenhos que nos transportem às estrelas. Mas um dia eles cá estarão. Nós tê-los-emos construído ou chamado.

E então haverá de novo o apito do transporte da noite. Não um apito como os antigos, porque o som não se propaga no espaço interstelar. Mas haverá algo, talvez o relâmpago do magnetobrehmstrahlung, quando o transporte para as estrelas atingir uma velocidade próxima da da luz. Haverá um sinal.

Numa noite límpida, olhando das cidades do tamanho de continentes e de vastas reservas de caça que poderão ser o futuro deste planeta, os jovens sonharão que quando crescerem, se tiverem sorte, partirão no transporte nocturno para as estrelas.

Thursday, December 23, 2010

Para que serve a exploração espacial?


Porque vamos explorar o espaço se há pessoas a morrer à fome na Terra?

Esta pergunta é de vez em quando colocada por variadas pessoas (por exemplo, por Saramago), embora não faça qualquer sentido. Há muito dinheiro mal gasto na Terra (em guerras, por exemplo), porque não perguntar antes se o vamos continuar a gastar quando há pessoas a morrer à fome? E na Terra também se faz investigação científica, não é só no espaço; como tal, para quem coloca a questão acima, porque não usa também toda a investigação científica sem aplicabilidade imediata para o seu argumento?

A resposta parece-me evidente: para fazer uma metáfora mais bonitinha. Ao opor-se desta forma o que está longe e o que está perto, e dizendo que se chega mais facilmente ao primeiro, talvez se ache que se está a usar uma poderosa metáfora. Infelizmente, quem o faz não se apercebe de que ao colocar a questão assim, preto no branco, separando desta forma redutora os supostos problemas importantes (os que estão perto) dos supostos problemas irrelevantes (os que estão longe), só está a ser absolutamente demagógico e simplista.

Para quê, então, explorar o espaço? Na minha opinião, há uma razão que se sobrepõe a todas as outras: pelo conhecimento. Pela mesma razão que criámos a História ou a Ciência, pela vontade de conhecer, seja o passado ou o mundo que nos rodeia. Não faz sentido que essa busca pelo conhecimento deva ter critérios diferentes se for feita na Terra ou fora dela, a não ser na cabeça de quem se usa da exploração espacial para fazer expor os seus argumentos de forma demagógica.

Felizmente, há ainda outras razões para fazer investigação em espaço, incluindo imensas aplicações úteis no imediato para a sociedade. Para dar a conhecer essas aplicações ao público, a NASA editou um documento (pode ser lido aqui) onde explica como tecnologias utilizadas para exploração espacial acabaram por ter aplicações em diversas áreas, desde a medicina até aos transportes.

Não se deve, no entanto, cair no erro de achar que toda a investigação que se faz deve ter aplicabilidade imediata. A maioria da investigação faz-se para aumentar o saber. Só depois de se conhecer é possível entender que benefícios poderá trazer.

Wednesday, December 8, 2010

a audácia do sonho


No curso de Verão que frequentei em Kiruna este ano, intitulado Human Spaceflight and Exploration, o antigo astronauta alemão Gerhard Thiele deu uma primeira palestra sem qualquer apresentação de slides como suporte. Simplesmente colocou questões relacionadas com espaço, e incentivou a discussão de opiniões à medida que também ia partilhando as suas.
Porque é que exploramos (em particular o espaço)?


O que significa exactamente explorar?


Qual é a diferença entre explorar e fazer ciência?
Lembrei-me desta palestra e das questões que foram levantadas (assim como de algumas das respostas de colegas meus) ao ler o livro As Ligações Cósmicas, de Carl Sagan, quando ele fala na mensagem enviada para o espaço a bordo da Pioneer 10 em 1972 e da Pioneer 11 no ano seguinte.

Nestas naves espaciais foi colocada a placa que está na figura. A mensagem, que gerou muita discussão e crítica, destina-se a uma civilização extraterrestre que possa um dia interceptar uma das naves. Algumas das críticas eram pertinente: conseguiria uma civilização extraterrestre interpretar alguma coisa do que lá está? No entanto, outras eram simplesmente estúpidas, sobretudo as vindas de grupos feministas que conseguem sempre arranjar forma de inventar que a mulher está representada como um ser inferior ao homem.

A mim, no entanto, pouco me interessa discutir a mensagem que lá está. Parece-me pouco provavel que, na eventualidade de ser interceptada, a mensagem seja entendida, mas não creio que seja isso que importe. Concordo com quem na altura escreveu que "teremos todos morrido quando esta mesma mensagem numa garrafa for recebida por uma indiscritível patrulha espacial". De qualquer modo, o fundamental é "a sua existência, a audácia do sonho".

No limite, talvez seja a isto que se resume a nossa vontade de explorar. A nossa capacidade de ver mais longe, para lá do tempo que dura uma vida humana, mantendo a esperança na intercepção daquela mensagem que assinala que estamos aqui, independentemente de sermos ou não compreendidos, e sem nunca sabermos que alguém sabe que existimos.

Tuesday, November 30, 2010

Northern Lights


Esta fotografia foi tirada o mes passado em Tromsø, a sétima maior cidade da Noruega e uma das que se situa mais a norte, a quase 70º de latitude. Nesta cidade, a Noite Polar dura de 26 de Novembro a 15 de Janeiro, o que significa que, durante estes meses, o Sol não é visto no céu. Nos meses em redor, Tromsø é um dos melhores locais do mundo para observar o fenómeno desta fotografia: Aurora Boreal, traduzido frequentemente para inglês como Northern Lights.

Este fenómeno tem origem nos choques de partículas carregadas que se dão na ionosfera, excitando moléculas que, ao serem desexcitadas libertam fotões. Quando a molécula excitada é o oxigénio, a aurora toma geralmente uma cor verde, que é a sua cor mais comum. No entanto, quando a molécula excitada é o azoto, a aurora toma um aspecto ainda mais raro e exótico, enchendo o céu de azul e vermelho.

Esta é uma das mais espantosas fotografias que vi de uma aurora boreal. No video abaixo, é possivel ver mais exemplos em alta definição, todos eles filmados em Tromsø.

Saturday, August 28, 2010

Sven's Space Place

Durante o curso que referi no post anterior, tive também oportunidade de assistir a duas conferências do sueco Sven Grahn sobre a história da exploração espacial. As suas apresentações tiveram um interesse muito especial pelo facto de Sven Grahn ter quase sempre uma história pessoal a acrescentar sobre grande parte dos acontecimentos que relatou e sobre as pessoas que conheceu graças ao seu interesse pela exploração espacial.

Na verdade, Sven Grahn interessa-se de tal forma por estas questões que mantém um site chamado Sven's Space Place, que dedica especialmente à fase da corrida ao espaço que ocorreu durante a Guerra Fria. Para os interessados por estas questões, recomendo a visita.

Tuesday, August 24, 2010

Regresso

Regressado da Suécia, gostaria de explicar o que mais me impressionou no curso Human Spaceflight and Exploration, um curso de Verão em que estive em Kiruna, a cidade mais a norte da Suécia, acima do Círculo Polar Ártico.

Para além da oportunidade de aprender mais sobre a história da exploração espacial, tripulada e não tripulada, a experiência foi sobretudo importante por algumas das pessoas que estiveram a dar conferências. O interesse e a paixão que depositam naquilo que fazem é impressionante. Nunca antes, nem mesmo na área da música (e os músicos, tal como os artistas em geral, costumam ter a estranha convicção de que só eles gostam verdadeiramente daquilo que fazem, ao contrário do aborrecimento das restantes profissões), tinha conhecido pessoas tão apaixonadas por aquilo que fazem.

Gail Iles, uma alemã com o doutoramento em física, falou sobre experiências em micro-gravidade em que participa (rockets e vôos parabólicos feitos pelo avião zero-g, da ESA), sobre turismo espacial e uma possível ida a Marte no futuro. Depositava um entusiasmo tal ao falar sobre o que fazia, que deixou qualquer um na sala com vontade de ser astronauta.

Gerhard Thiele, um astronauta alemão que fez um vôo no Space Shuttle com o objectivo de mapear a superfície terrestre, deu uma primeira conferência sem qualquer apresentação de slides, tendo simplesmente aberto uma discussão sobre o significado do termo exploração, sobre as diferenças entre explorar e fazer ciência, sobre as motivações que levam o Homem a querer ir ao espaço, e sobre as diferenças em termos de objectivos entre exploração triupada e não-tripulada, à medida que ia moderando e dando a sua opinião sobre estes temas. A facilidade com que cativou a audiência, mesmo com temas tão vagos, foi incrível.

Outros exemplos poderiam ser dados, pois não foram poucos os que me marcaram pelas mesmas razões. Mas para não me repetir mais, e a propósito de discursos inspiradores, deixo apenas o famoso discurso de JFK na Universidade de Rice, a propósito da ida à Lua.