Sunday, November 22, 2009

"Fim"

Este será, possivelmente, o último post neste blog. Não se trata, contudo, de um verdadeiro fim, mas de uma transição. Decidi criar um blog juntamente com amigos, que são de áreas diferentes da minha mas com os quais partilho uma parte da minha maneira de pensar. Desta forma, o tom e o estilo dos textos serão semelhantes aos que aqui têm visto, mas as opiniões e os temas serão mais amplos. Espero que tal contribua tanto para o entusiasmo de quem lê como de quem escreve.

Para os que desejarem, podem-me continuar a seguir aqui.

Saturday, November 21, 2009

LHC a funcionar

Depois de mais de um ano parado, o maior acelerador de partículas do mundo está finalmente a funcionar. Já começaram a ser feitos testes no LHC, que o CERN vai comunicando através do twitter. Desde ontem que o anel de 27 km a 100 metros de profundidade já vai sendo percorrido por feixes de partículas.
Há uns dias, o LHC atingira a sua temperatura mínima de 1.9K, mais baixa do que a radiação cósmica de fundo. Isto deve recordar-nos do poder da tecnologia. Criámos seguramente um dos lugares mais frios de todo o Universo.

Thursday, November 19, 2009

Cepticismo Pessoano

O Livro do Desassossego, escrito não por Fernando Pessoa ortónimo mas pelo semi-heterónimo Bernardo Soares, é um livro completamente fragmentado em pequenos excertos que, aparentemente, não formam uma grande ligação lógica entre si. No entanto, à medida que se vai lendo o que lá está escrito, apercebemo-nos de que naquelas centenas de excertos está uma visão completíssima da vida e do mundo. Não é, contudo, um debitar de opiniões pessoais: é como se alguém nos falasse do outro lado, desabafando com toda a sinceridade e honestidade. Foi isso que levou Pessoa a dizer, sobre Bernardo Soares, que "o Livro do Desassossego não é dele, mas é ele próprio".

Sempre que leio algo de Pessoa surpreendo-me de alguma forma. E esta vez, em que me pus a ler/reler alguns excertos do Livro do Desassossego, não foi excepção. Isto porque é muito comum ligar-se Fernando Pessoa ao ocultismo, à espiritualidade e ao misticismo. No entanto, a verdade é que o excerto 256 deixaria qualquer defensor do cepticismo sem palavras a acrescentar.

Tive sempre uma repugnância quase física pelas coisas secretas - intrigas, diplomacia, sociedades secretas, ocultismo. Sobretudo me incomodaram sempre estas duas últimas coisas- a pretensão, que têm certos homens, de que, por entendimentos com Deuses ou Mestres ou Demiurgos, sabem - lá entre eles, exclusos todos nós outros – os grandes segredos que são os caboucos do mundo.

Não posso crer que isso seja assim. Posso crer que alguém o julgue assim. Por que não estará essa gente toda doida, ou iludida? Por serem vários? Mas há alucinações colectivas.

O que sobretudo me impressiona, nesses mestres e sabedores do invisível, é que, quando escrevem para nos contar ou sugerir os seus mistérios, escrevem todos mal. Ofende-me o entendimento que um homem seja capaz de dominar o Diabo e não seja capaz de dominar a língua portuguesa. Por que há o comércio com os demónios ser mais fácil que o comércio com a gramática? Quem, através de longos exercícios de atenção e de vontade, consegue, conforme diz, ter visões astrais, por que não pode, com menor dispêndio de uma coisa e de outra, ter a visão da sintaxe? Que há no dogma e ritual da Alta Magia que impeça alguém de escrever, já não digo com clareza, pois pode ser que a obscuridade seja da lei oculta, mas ao menos com elegância e fluidez, pois no próprio abstruso as pode haver? Por que há-de gastar-se toda a energia da alma no estudo da linguagem dos Deuses, e não há-de sobrar um reles bocado com que se estude a cor e o ritmo da linguagem dos homens?

Desconfio dos mestres que o não podem ser primários. São para mim como aqueles poetas estranhos que são incapazes de escrever como os outros. Aceito que sejam estranhos; gostara, porém, que me provassem que o são por superioridade ao normal e não por impotência dele.

Dizem que há grandes matemáticos que erram adições simples; mas aqui a comparação não é com errar, mas com desconhecer. Aceito que um grande matemático some dois e dois para dar cinco: é um acto de distracção, e a todos nós pode suceder. O que não aceito é que não saiba o que é somar, ou como se soma. E é este o caso dos mestres do oculto, na sua formidável maioria.

Tuesday, November 17, 2009

Plano Inclinado

Serve este post para deixar o video do último Plano Inclinado, mas antes disso aqui ficam algumas opiniões. Depois de ter visto os dois primeiros programas, e tendo em conta que são três dos comentadores que mais aprecio em Portugal (e como tal os pontos positivos que vejo no programa são mais que muitos), gostaria de destacar os seguintes pontos negativos:

1) Medina Carreira está a querer monopolizar o programa, falando a maior parte do tempo, às vezes à custa de interromper os outros. É certo que a proposta do programa foi sua, mas a partir do momento que estão os três no ar, devem estar em pé de igualdade. Isto tem que ser corrigido, não só pelo próprio, que tem que tomar consciência disso, como por Mário Crespo, que deve fazer um esforço para equilibrar os tempos.

2) Nuno Crato parece estar um pouco a leste da abordagem de Medina Carreira e João Duque. O que é absolutamente normal, tendo em conta a sua formação académica e os seus temas de eleição. De qualquer forma, não deve, ao contrário do que tem acontecido, falar menos por causa disso. Em primeiro lugar, os temas discutidos têm de ser mais amplos: há muita coisa mal em Portugal para além do endividamento externo. No entanto, mesmo que o tema seja apenas este, a perspectiva menos técnica de Nuno Crato tem muito para enriquecer o debate. Note-se, por exemplo, que a sua intervenção sobre as potências asiáticas emergentes foi excelente.

3) Mário Crespo, pondo de parte o equilíbrio dos tempos que ainda tem para melhorar, confirma que é de facto o auge da qualidade jornalística em Portugal. Por um lado, não se limita a ser uma máquina que despeja perguntas e passa a palavra entre os comentadores, um sistema utilizado por muitos jornalistas inseguros e incapazes. Por outro lado, recusa um estilo sensasionalista e de querer dominar o debate. Na verdade, quando tem o papel de moderador, o que vemos é um ser humano de carne e osso, com opiniões próprias mas que não quer sobrepor às dos outros, e que, respeitando a seriedade e a ética jornalística, sabe explorar as fraquezas dos comentadores fazendo as perguntas correctas. Exemplo disso foi quando questionou Medina Carreira a propósito de apresentar soluções.

Aqui fica, então, o programa.


Monday, November 16, 2009

A inovação (?) de Saramago

Estalou a polémica com as declarações de Saramago sobre Deus e a Bíblia. É natural: preferimos sempre as questões insignificantes para o nosso presente e futuro do que ter que encarar de frente os reais problemas que enfrentamos. Por isso, decidi não perder tempo a comentar este assunto. Contudo, hoje não resisti. Ao ler uma passagem de The Age of Reason, de Thomas Paine (escrito no século XVIII), não pude deixar de esboçar um sorriso irónico ao lembrar-me das várias vozes que aplaudiram a inovação das críticas de Saramago.

Whenever we read the obscene stories the voluptuous debaucheries, the cruel and torturous executions, the unrelenting vindictiveness with which more than half the bible is filled, it would be more consistent that we call it the word of a demon rather than the word of god. It is a history of wickedness that has served to corrupt and brutalize mankind.

Sunday, November 15, 2009

Plano Inclinado

Hoje, na SIC Notícias, às 22h, a não perder mais um Plano Inclinado, com Henrique Medina Carreira, Nuno Crato e João Duque, moderado por Mário Crespo. Aqui fica o programa da semana passada.

Água na Lua


Ante-ontem, dia 13 de Novembro, o destaque da imagem do Google foi para a confirmação da existência água na Lua. Aquilo de que já há muito suspeitava é agora um dado certo: existe mesmo água no estado sólido no pólo sul da Lua. Apesar de isto já se saber deste 1994, a notícia não deixa de ser surpreendente. Na verdade, não só há água na Lua, como ela existe em grandes quantidades.

A forma como a descoberta foi feita é curiosa. A missão consistiu em fazer o satélite LCROSS despenhar-se na cratera Cabeus, sendo que o impacto provocou um jacto de 1.6 km de altura vapor de água. O Expresso noticiou o evento.

Friday, November 13, 2009

Último Teorema de Fermat

No século XVII, Pierre de Fermat escreveu, na margem de um livro, que não existiam números inteiros que verificassem a equação x^n+y^n=z^n para n>2, e que tinha uma bela prova, mas que ela não cabia naquela margem. A equação parece simples (daí também o seu fascínio), mas deu dores de cabeça a muitos matemáticos durante séculos.

Já no século XX, um jovem de 10 anos de nome Andrew Willes viu o teorema (que ficou entretanto conhecido como Último Teorema de Fermat), e partilhou o fascínio que muitos matemáticos sentiam por ele. A partir desse momento, o sonho dele foi provar o Último Teorema de Fermat.

O fascinante documentário da BBC que deixo aqui em baixo conta a sua história.












Dado que a prova de Andrew Willes seria impossível no século XVII, fica, para sempre, a pergunta: teria Fermat uma prova que nunca ocorreu a ninguém, ter-se-ia enganado a si mesmo na "prova" que construiu (ou seja, a prova que tinha estava errada), ou a anotação na margem seria apenas enganar?

Thursday, November 12, 2009

Muro de Berlim e Liberdade

Volta e meia, o PCP lá nos vai brindando com afirmações que parecem vindas de outro mundo. Desde a democracia da Coreia do Norte de Bernardino Soares aos gulags que talvez tenham existido de Rita Rato, há muito por onde escolher. Estas sucessivas afirmações passam sem causar escândalo ou polémica. Aconteceria o mesmo se um deputado afirmarsse que os campos de concentração nazi talvez tenham existido, mas que não sabe porque não estudou isso muito bem? Não, não aconteceria. E ainda bem, pois seria muito negativo que uma afirmação dessa gravidade fosse deixada passar assim. Só não percebo o porquê da reacção pública, de uma forma geral, ter diferentes critérios consoante o sabor do vento. Terão sido as milhões de mortes nos gulags de menor importância que as dos campos de concentração?

Agora, foi a vez do jornal Avante! ter dedicado uma bela prosa (tão bela que é de ficar com os olhos arregalados) à queda do muro de Berlim. Entre outras coisas, diz o seguinte:

A realidade das últimas duas décadas, não só na Alemanha de Leste, mas também na generalidade dos antigos países socialista do Centro e Leste Europeu, já para não falar da URSS, não testemunha qualquer progresso, por mínimo que seja, para o povo, mas antes um tremendo retrocesso económico e social que reduziu à miséria amplas camadas da população, condenou a juventude ao desemprego, privando a grande maioria de uma perspectiva optimista de futuro.

E, citando um antigo chefe de estado da RDA e dando a entender que o autor concorda com as suas afirmações (aqui fica o link, para não retirar a citação de contexto), está escrito:

«Cada vez mais alemães de Leste constatarão que tinham as condições de vida menos deformadas na RDA do que os alemães ocidentais com a economia “social” de mercado; que as crianças da RDA, nas creches, jardins-de-infância e escolas cresciam mais felizes, menos preocupadas, mais bem formadas e mais livres que as crianças da RFA (...). Os doentes constatarão que, apesar dos seus atrasos técnicos, o sistema de saúde da RDA os considerava como pacientes e não como objectos comerciais (...) Os artistas compreenderão que a censura da RDA, real ou imaginada, não era tão hostil aos artistas como a censura do mercado (...) Reconhecerão que na vida quotidiana, em particular no local de trabalho, tinham na RDA uma liberdade inigualável.»

Só há duas razões para que textos como este passem sem causar escândalo na sociedade portuguesa. Ou é porque aceitamos o que aqui é dito como sendo uma opinião perfeitamente válida, e consonante com o que na realidade se passava na RDA e na URSS; ou então porque achamos estas afirmações tão insignificantes e boçais, de tão ridículas que são, que já não lhes damos qualquer importância. Resta-me esperar que seja pela segunda razão, pois seria grave adulterarmos os factos mais negros da nossa História. Primeiro, porque seria um desrespeito perante os milhões de mortos pelas mãos do regime da URSS, e em particular por aqueles que morreram a tentar atravessar o muro; segundo, porque seria perigoso que as gerações futuras não conhecessem os erros do passado.

É, aliás, a falta de respeito pelas vítimas que mais me choca. Que se atribue à palavra liberdade um conceito altamente duvidoso... enfim, cada um de nós gostará de viver sob determinado regime político, e não vou discutir gostos. Mas que um partido que tanto gosta de glorificar (e justamente) aqueles que sofreram às mãos da ditadura salazarista, lutando contra ela, decida dedicar um texto à "liberdade inigualável da RDA" e se esqueça de referir as centenas de pessoas que morreram a tentar passar o muro, é no mínimo nojento.

Tuesday, November 10, 2009

Data histórica para a ciência

Dia 9 de Novembro, para além de ser uma data histórica em termos políticos, devido à queda do muro de Berlim, é também uma data histórica para a ciência. Só mesmo porque me foi completamente impossível é que não deixei aqui ontem uma palavra a esse respeito. Dia 9 de Novembro de 1934 nasceu Carl Edward Sagan. Teria feito ontem 75 anos, caso fosse vivo.

Carl Sagan marcou uma geração de astrónomos e foi responsável por ter cativado muita gente para a ciência. A sua série de TV, Cosmos, conseguiu fascinar mesmo aqueles que à partida não teriam um grande interesse por ciência. Era um comunicador nato, o grande divulgador da ciência ao público em geral.

Tinha um fascínio enorme pela ciência. Nos seus livros, repete frequentemente a palavra "wonder" quando aborda as maravilhas que as ciência nos trouxe, nos traz, ou poderá trazer. Foi um grande crítico das pseudo-ciências e defensor do cepticismo. Insistiu na elevada probabilidade da existência de vida extra-terrestre, e foi um dos fundadores do SETI. Tinha um enorme interesse por Titan, uma lua de Saturno que os astrofísicos normalmente comparam a uma Terra primitiva, mas mais fria. Foi um dos primeiros a especular sobre os seus lagos de metano líquido, hipótese que se veio a confirmar.

A certa altura, foi diagnosticado com mielodisplasia, tendo acabado por morrer de pneumonia aos 62 anos. Deixou livros, conhecimentos, e uma série de pessoas que, graças a ele, ficaram marcadas pela ciência. Há 3 dias, 7 de Novembro de 2009, celebrou-se o primeiro Carl Sagan Day.

Aqui fica um fascinante excerto do audio-book do livro Pale Blue Dot.


Thursday, November 5, 2009

Conhecimento Geral

O crescente facilitismo em que a educação tem vindo a resvalar não se verifica só pela falta de exigência dos exames, pela progressiva perda de autoridade por parte do professor na sala de aula, ou pela introdução de disciplinas ridículas (áreas de projectos e afins) à custa de outras mais importantes. Também se verifica no facto da especialização do ensino ocorrer demasiado cedo.

Não é aceitável que um cientista ou um engenheiro não saibam escrever um artigo de qualidade exemplar. Não é aceitável que um historiador não conheça a 2ª Lei de Newton. Não é aceitável que um economista não saiba quem pintou determinado quadro famoso. Nem é aceitável que um artista oiça falar da bolsa de valores e pense que se está a falar em alguma língua desconhecida.

Numa educação séria, um aluno não pode estudar só o que quer, o que gosta ou o aquilo para que tem mais jeito. Quando se programa uma calculadora, ela só tem que cumprir as suas função de fazer cálculos, gráficos, etc.; não tem que saber dar chutos numa bola. Quando se fabrica um robot que saiba jogar futebol, ele não tem que nos saber dizer quanto são 2+2. No entanto, quando se prepara um ser humano para fazer seja o que for, ele não pode deixar de ter um conhecimento geral sobre o mundo que o rodeia, para que, de forma crítica, possa pensar sobre ele, assim como comunicar com os que o rodeiam.

Alexandra Azevedo, há uns dias no De Rerum Natura, escreveu um excelente texto que termina assim:

Hoje, tal como ontem, deveríamos querer que os alunos sejam capazes de uma cidadania responsável, tendo para isso de ser proficientes em diversas áreas. Deveriam conhecer suficientemente tanto as ciências como as humanidades, crescendo na virtude e na inteligência. Só assim poderão ter «a justiça como fundamento».

Qualquer modelo no qual os estudos humanísticos e científicos não sejam fortes e complementares fraquejará em vitalidade e integralidade. E fraquejará porque será apenas mais um modelo de moda, temporário. O pulso da nação começará a faltar.

Wednesday, November 4, 2009

1 minuto de astronomia



A propósito do Ano Internacional da Astronomia, a RTP começou hoje a passar uma série de videos de um minuto de um projecto chamado 1 minuto de astronomia. São 13 videos, cada um com um minuto e sobre um tema relacionado com a astronomia, narrados por pessoas famosas da televisão e do cinema, e escritos por alguns cientistas portugueses.

No site, estão disponiveis todos os videos, assim como artigos mais longos sobre cada um dos temas. Embora não seja um programa que vá mudar a atitude das pessoas face à astronomia, nem deixá-las particularmente fascinadas com esta área científica, é sem dúvida um projecto interessante.

E, já agora, aqui fica um desejo: que se publicitasse e voltasse a transmitir a série Cosmos na televisão portuguesa.

Tuesday, November 3, 2009

Privacy and the Quantum Internet

Há um fascinante artigo na Scientific American de Outubro com o título deste post. Segundo o autor, Seth Lloyd, professor no M.I.T. e director do W. M. Keck Center for Extreme Quantum Information Theory, a chave para a segurança e privacidade na internet pode estar na aplicação das (bizarras) leis da mecânica quântica. Lloyd começa por explicar o conceito base:

The ability of quantum physics to supply complete privacy stems from a simple fact: systems in the quantum realm can exist in multiple states. At any particular time, an atom can be in several different places; a particle of light, or photon, can be polarized both vertically and horizontally; an electron's magnetic moment can point up and down, and so on. As a consequence, whereas classical (as opposed to quantum) data bits register either the value 0 or the value 1, quantum bits can register 0 and 1 at the same time. Also, whenever a quantum bit takes on the values 0 and 1 simultaneously, you cannot make an exact copy of that quantum bit, and any attempt to do so will change the state of the bit.

A certa altura, o autor afirma: Although such magic is impossible with current computers, databases and networking hardware, we realized that it is not technologically out of reach. Ao ler esta frase, lembrei-me da terceira das famosas três "Leis" de Arthur C. Clarke: Any sufficiently advanced technology is indistinguishable from magic. De facto, pensando nas descrições de Seth Lloyd, pode parecer que é magia que este quer aplicar à tecnologia do futuro, e não as leis físicas que regem o mundo. Isto lembra-nos que a terceira lei de Clarke está muito provavelmente certa: alguém que viveu há 200 anos atrás confundiria com magia a maioria dos produtos da nossa tecnologia. Que magias veriamos nós (e que os nossos descendentes verão) se pudessemos espreitar para daqui a 200 anos?

O artigo pode ser lido integralmente aqui.

Sunday, November 1, 2009

Baloney Detection Kit

No livro que dá título a este blog, Carl Sagan desenvolveu algumas ideias com vista à construção de um "kit para detectar disparates". Num mundo em que as crenças, superstições, mitos e teorias de conspiração ainda se encontram muito difundidos, a ideia desse kit é, através do cepticismo e do método científico, ajudar as pessoas a distinguir entre o que é verdade, o que é provável que seja verdade, o que não se sabe, o que é provável que seja mentira, e o que é de facto mentira.

Michael Shermer, um dos mais famosos cépticos actuais, editor da revista Skeptic que escreve mensalmente para a Scientific American e é autor do fabuloso livro Why People Believe Weird Things?, recupera essa ideia iniciada por Carl Sagan e, num video para a The Richard Dawkins Foundation, explica alguns dos conceitos desse kit.


Plano Inclinado

Segundo o jornal Expresso de ontem, vai ter início na Sic Notícias, a partir do próximo sábado, um programa com Henrique Medina Carreira, Nuno Crato e João Duque, onde se vai reflectir sobre os problemas do país. O programa terá moderação de Mário Crespo. Com um "elenco" destes, certamente a não perder.

Sunday, October 25, 2009

O vírus de Schrödinger


No início do século XX, surgiram duas visões opostas sobre a mecânica quântica: de um lado, a chamada interpretação de Copenhaga (Bohr, Heisenberg); do outro, físicos como Schrödinger e Einstein. Enquanto os primeiros acreditavam numa versão probabilística da física de partículas, os segundos defendiam que (pelas famosas palavras de Einstein) "[Deus] não joga aos dados".

A interpretação de Copenhaga da mecânica quântica tem talvez as consequências mais contra-intuitivas que a física alguma vez nos deu a conhecer. Por exemplo, ao contrário do que acontece no mundo macroscópico, uma partícula pode estar em dois sitios ao mesmo tempo. Isto origina vários paradoxos, que os físicos que discordavam dessa interpretação fizeram questão de referir. Dois dois mais famosos são o EPR (Einstein-Podolsky-Rosen) paradox e o gato de Schrödinger. Este último consiste no seguinte:

Dentro de uma caixa blindada e opaca, lá está ele [o gato]. Ao pé, mas inacessíveis ao gato, há um frasco cheio de gás de cianeto, uma amostra de material radioactivo, um martelo e um detector de radiação (estes dois últimos objectos ligados um ao outro por um circuito eléctrico). O material radioactivo tem uma probabilidade de 50 por cento de emitir uma partícula de radiação ao longo de uma hora - e a mesma probabilidade de não emitir nada. Passado esse tempo, se a partícula tiver sido emitida, ela terá sido detectada pelo detector, que terá accionado o martelo, que terá esmagado o frasco, que terá libertado o veneno, que terá morto o gato. Se não tiver sido emitida, nada terá acontecido ao animalzinho de estimação, que continuará vivo.

Só que, como o material radioactivo se rege pelas leis da mecânica quântica, ele pode ter emitido a radiação e não a ter emitido, dando origem ao que os físicos chamam uma "sobreposição" desses dois estados. E como os estados de saúde possíveis do gato estão intrinsecamente ligados a esse fenómeno quântico pelo "mecanismo diabólico" da experiência (a expressão é do próprio Schroedinger), o gato também se encontra, simultaneamente, em dois estados radicalmente diferentes: está vivo e morto ao mesmo tempo.

De acordo com um fascinante artigo do Público (de onde retirei a descrição da experiência do gato de Schrödinger), cientistas do Instituto Max Planck tencionam levar a cabo uma experiência semelhante, mas com um vírus, em vez de com um gato. No artigo, Carlos Fiolhais (Universidade de Coimbra) e Yasser Omar (Universidade Técnica de Lisboa) comentam as possiveis consequências físicas e filosóficas que se poderão retirar desta experiência. Recomendo a leitura do artigo.

De qualquer forma, independente das conclusões que se irão retirar depois da experiência ter sido levada a cabo, importa referir que, hoje em dia, a interpretação de Copenhaga leva grande vantagem. Mesmo que ainda existam paradoxos por resolver, teremos de aceitar que o mundo das partículas vai, de facto, contra a noção que temos do mundo macroscópico. É bem provável que Einstein estivesse errado: Deus joga mesmo aos dados.

Problema de Monty Hall

O problema de Monty Hall é um dos mais interessantes (aparentes) paradoxos de probabilidades. Popularizado pelo programa Let's Make a Deal, e entretanto muito debatido em revistas científicas e não só, o problema de Monty Hall consiste no seguinte:

Imagine que está num concurso e que tem à sua frente três portas. Duas delas, escondem bodes; uma, o prémio - um carro. O apresentador diz-lhe que escolha uma porta. Depois de escolhida a sua porta, o apresentador, que sabe onde está o carro, abre uma das outras duas portas que não escolheu - uma que contenha um bode. Neste momento, tem uma porta aberta, com um bode; e duas portas fechadas, sendo uma delas a que escolheu. O apresentador dá-lhe então a oportunidade de mudar de porta para a outra que se encontra fechada. Vale a pena aproveitar a oportunidade?

A resposta é contra-intuitiva, mas de facto vale a pena trocar de porta. Trocando, a probabilidade de acertar no carro é 2/3, enquanto não trocando é 1/3. Muitas explicações para o porquê destes números deixam grande parte das pessoas na mesma. No entanto, este video costuma ser esclarecedor. É, na minha opinião, a melhor explicação para o problema.


Saturday, October 17, 2009

Ranking das Escolas Secundárias

Como já vai acontecendo há oito anos, foi mais uma vez disponibilizado o ranking SIC/Expresso das escolas do ensino secundário do país, seriadas pela média dos exames nacionais, sendo também revelada a classificação interna dos alunos. Sobre os dados que consultei, gostaria de destacar dois e comentá-los.

1) No TOP20 existem apenas 3 escolas públicas, e nenhuma entre as primeiras 10. Ao olhar para estes números, devemos reflectir sobre as razões que fazem com que isto aconteça, e como corrigi-lo. Parece-me óbvio, desde logo, que o sistema educativo público tem problemas. Como me parece irrealista pensar que os professores do ensino privado são melhores que os professores do ensino público, essa não deve ser a causa desses problemas. Na minha opinião, a causa tem que ver sobretudo com o espírito de motivação e de esforço que muitas escolas privadas conservam. Pelo contrário, na maioria das escolas públicas, com a figura de autoridade do professor completamente desfeita, torna-se complicado passar esse espírito aos alunos. No entanto, é um problema corrigível, sendo o principal passo dar mais poder de decisão às escolas.

2) A classificação nos exames em comparação com a classificação interna não é tão proporcional como deveria. Fazendo uma média das 10 primeiras escolas, o factor de proporcionalidade é de 1.09; para as 10 escolas a meio da tabela é de 1.27; para as 10 últimas é de 1.57. Gostaria de verificar como varia o factor de proporcionalidade à medida que a posição na tabela vai descendo, mas estes números já nos permitem fazer uma estimativa muito boa. Perante isto, acho lamentável que se defenda a abolição dos exames nacionais, ou que estes devem ter menor peso. Como podemos observar, as notas dos alunos nas piores escolas são inflaccionadas de forma injusta. Quando procuramos casos em particular, assusta ainda mais: por exemplo, a escola que está em 405º tem uma média de classificação interna mais elevada do que a que está em 22º! Mesmo sendo verdade que se trata de um caso extremo, há outros exemplos de injustiças que não deixam dúvidas: se virmos a tabela entre o número 100 e o 400, por exemplo, podemos ver a diferença entre a evolução da classificação interna e a dos exames, e tirar conclusões. É claramente preciso pensar sobre se os exames não devem ter mais peso na classificação geral do aluno.

Monday, October 12, 2009

Direito à Intimidade

aqui esclareci a minha opinião sobre as redes sociais que existem na internet, tentanto explicar por que razões a sua popularidade não me agrada. Um dos problemas que referi foi o facto das pessoas cada vez mais estarem a perder a noção do que deve pertencer à vida privada de cada um e do que deve ser do domínio público. Actualmente, em parte graças à facilidade de comunicação que a internet nos trouxe, as pessoas não têm quaisquer problemas (até gostam de o fazer) em expor a sua vida privada.

A minha motivação para retomar esse ponto em particular surgiu depois de ter lido este post de Helena Damião no De Rerum Natura. Recomendo a leitura do texto, mas de qualquer forma, para resumir, são criticadas algumas pedagogias educativas que obrigam os alunos a revelar a sua vida privada e a discuti-la em público. Por exemplo, "em diálogo com o grupo", é-lhes pedido para exprimirem "o que pensam e sentem sobre si próprios, como pessoas e como membros da sua família". Como Helena Damião comenta, e muito bem,

O que é que as crianças aprendem com isto? Aprendem a expor-se, a serem expostas e a expor as pessoas que lhe são próximas ao conhecimento público.
Isto não é Pedagogia, nem Ética, nem Educação. Isto é uma coisa que não devemos tolerar.

Infelizmente, este tipo de atitude não é exclusiva da educação. Se fosse, seria altamente criticada pela sociedade em geral. Mas não o é, porque cada vez mais se caminha no sentido de destruir o conceito de privacidade nas respectivas vidas pessoais. Para a maioria das pessoas, este tipo de pedagogias educativas não faz qualquer confusão: porque é que os alunos não hão-de revelar a sua vida privada na escola, à frente de todos os colegas, se muitos (embora mais velhos) o fazem de bom grado no Hi5, no Facebook, etc.? Generalizou-se então esse conceito, e chegou-se à conclusão de que revelar a vida privada em público deve ser o normal para uma pessoa sã, que com isso até demonstra ter facilidade de comunicação com os outros.

O problema de todo este raciocínio lógico é que muita gente se esquece que continuam a existir pessoas que dispensam brincar à intimidade. E, em particular, há muitas crianças da escola primária que, com todo o direito, preferem guardar para si o que fazem com a sua família, assim como o que pensam sobre ela e sobre si mesmos. Como tal, só posso concordar com Helena Damião quando cita Karl Popper, dizendo que "há coisas que não podemos tolerar": esta é certamente uma dessas coisas.

Actualmente, as redes sociais estão no auge da popularidade, e é através delas que se estabelecem milhares de amizades que, na verdade, não o são. Essas "amizades" são escolhidas através de fotografias e de listas de preferências, e muitas vezes têm apenas como objectivo encontrar parceiros amorosos ou apenas sexuais, que mudam ao sabor do vento, ou apenas de um clique no rato. A vida de cada um, em particular das relações humanas que vai criando, é então partilhada e exposta com a maior das facilidades, ou seja, já não estamos apenas a expor a nossa própria vida, mas também a dos que nos são próximos. Da mesma forma, um aluno educado segundo as práticas pedagógicas que acima referi não só expõe a sua vida, mas também a dos seus familiares.

Numa sociedade que está a destruir o direito à intimidade, não deveria ser o papel da educação restabelece-lo, ao invés de contribuir para o seu declínio?

Sunday, October 11, 2009

Obama - Nobel da Paz

A entrega do Prémio Nobel da Paz a Barack Obama criou polémica. Alguns, que vêem no actual presidente americano o caminho para a salvação do planeta, encaram esta entrega com a maior naturalidade. Outros, que desde o início criticam cada movimento de Obama, acham que o comité norueguês (responsável pelo Nobel da Paz) enlouqueceu de vez. Eu, que vejo em Obama um simples mortal com excelentes capacidades de oratória e grande competência, tendo a colocar-me no meio desta discussão.

Desde o início que o discurso de Barack Obama tem em vista o diálogo entre nações como forma de atingir a paz. Nos Estados Unidos da América, conseguiu mobilizar milhões de pessoas descrentes no sistema político em torno desse objectivo comum. Na Europa, onde a esmagadora maioria dos cidadãos criticou a era Bush, Obama é talvez mais popular do que nos EUA. Já depois de ter sido eleito, fez um discurso na Universidade do Cairo onde foi muito aplaudido, apesar de grupos talibãs terem apelado para que o mundo árabe não fosse na conversa de Obama. Esse discurso foi, aliás, excelente: elogiou e criticou tanto o mundo árabe como os EUA; desfez os estereotipos que se associam a cada um deles; e a ambos atribuiu culpas nas fracas relações que existem actualmente, da mesma forma que afirmou que ambos terão de trabalhar em conjunto para as restabelecer. E, finalmente, há que referir o diálogo com a Rússia e o acordo para o desarmamento. Por isso, sim, o que Obama fez tem tido em vista unir o mundo em torno da paz entre as nações.

Contudo, em termos práticos, Barack Obama ainda não tomou medidas verdadeiramente conseguentes para atingir a paz. De facto, a política do presidente para o Iraque não mudou radicalmente, ainda não fechou Guantanamo, é a favor da pena de morte para os crimes mais graves, e sempre se manisfestou a favor da guerra no Afeganistão. É discutível se esta guerra é ou não necessária do ponto de vista estratégico, mas uma coisa é certa: defende-la não é próprio de um Prémio Nobel da Paz. Neste sentido, o prémio não me parece de todo bem atribuido.

De acordo com o próprio Alfred Nobel, o prémio deve ser atribuido à pessoa que "during the preceding year [...] shall have done the most or the best work for fraternity between nations, for the abolition or reduction of standing armies and for the holding and promotion of peace congresses". Barack Obama apenas cumpriu isto parcialmente. Como tal, não posso deixar de acreditar que este prémio foi atribuido, acima de tudo, por motivos políticos.

Friday, October 2, 2009

O cepticismo e os nossos medos

O cepticismo tem vindo a ser defendido por muitos autores de divulgação científica, desde Carl Sagan a Richard Dawkins, entre muitos outros. É evidente, claro, que o cepticismo não pode ser levado ao extremo: questionar tudo é tão inconsequente como não questionar nada. Dominar o cepticismo significa saber diferenciar aquilo que são mitos e crenças, daquilo em que existem provas claras; as coisas que parecem muito pouco prováveis, daquelas que muito dificilmente poderão ser de outra maneira. O cepticismo é a arma que temos para não nos deixarmos enganar, e para estarmos conscientes da realidade do mundo que nos rodeia.

Apesar disso, o cepticismo não está enraizado nas pessoas. Pelo contrário: vivemos numa sociedade dominada por mitos e crenças, o que se comprova pelos estudos estatísticos do que pensam as pessoas sobre evolucionismo vs. criacionismo, pelas histórias de contacto com extra-terrestres, pela importância que muita gente dá à astrologia, pelas crenças em fenómenos paranormais, ou pela cada vez mais famosa teoria de que o homem não foi à Lua, que muitos consideram que pode ser verdadeira. Porquê?

A resposta a esta pergunta - porque é que as pessoas preferem a crença ao cepticismo - pode ser muito complexa, mas penso que uma das razões mais importantes é o medo da morte. Quase todos nós, cépticos e não cépticos, nos deixamos perturbar pela efemeridade da vida. Gostaríamos de viver mais, de ter mais tempo para fazemos as coisas que gostamos. Mas não o temos. Que sentido tem, então, uma vida tão efémera que, com a morte, acaba de uma vez por todas? Para responder a esta perturbante questão, muitas pessoas procuram consolo na crença completamente infundada da vida eterna, entregando-se a ela como se de uma verdade absoluta se tratasse.

O que os cépticos têm defendido é que é preferível estarmos conscientes da realidade, mesmo com os seus defeitos, do que vivermos num mundo de ilusão e de falsas esperanças. No entanto, muitas pessoas não se incomodam com falsas esperanças. Para além disso, os cépticos também dizem que a vida não perde o seu sentido sem crenças divinas e sem mitos paranormais. Alguns, como Carl Sagan, levam o argumento ainda mais longe: o cepticismo e a ciência são mesmo o melhor caminho para o mais espantoso deslumbramento perante o mundo. A propósito, Michael Shermer, no seu excelente livro Porque é que acreditam as pessoas em coisas estranhas, cita o poeta Matthew Arnold para demonstrar esta ideia de que a simplicidade da vida, tal como ela é, deveria ter para nós o maior significado.

Será uma coisa tão insignificante, Ter apreciado o sol,
Ter vivido com leveza na Primavera,
Ter amado, ter pensado, ter feito;
Ter tido verdadeiros amigos, e derrotado incríveis inimigos -
Que devamos fingir uma felicidade De uma data futura incerta,
E enquanto sonhamos com isto, Perdemos o nosso estado presente,
E relegamos para mundos... ainda distantes o nosso descanso?

As crenças generalizadas e a ignorância científica produziram, no passado, as maiores atrocidades, sendo o maior exemplo a caça às bruxas que se iniciou no final da Idade Média. Para que realidades como essa não se repitam, é necessário continuar a cultivar o cepticismo e o método científico, como forma de conseguimos filtrar o que é verdade do que não é; o que é provável do que é improvável; o que é facto e o que é especulação. Ao mesmo tempo, é preciso que se perceba, através de excertos como o que citei acima, que o cepticismo não é inimigo da felicidade. É simplesmente um modo de estar no mundo que nos permite apreciá-lo tal como é, e não como gostariamos que fosse.

Monday, September 28, 2009

Rescaldo

Algumas notas soltas sobre as eleições legislativas de 27 de Setembro de 2009:

1) A passada noite de eleições espelha plenamente as razões por que cada vez menos suporto a política portuguesa. As reacções dos partidos aos resultados chegaram a roçar o ridículo. Em vez de se preocuparem em fazer uma análise séria do que tinha ocorrido, ou seja, analisar os pontos positivos e objectivos alcançados vs pontos negativos e coisas a melhorar, os dirigentes preocuparam-se apenas em elaborar discursos demagógicos, interpretando os resultados à luz do que lhes dava jeito.

2) José Sócrates disse que foi uma "extraordinária vitória" do PS, mas esqueceu-se que, em quatro anos, perdeu cerca de meio milhão de votantes; não se mostrou desiludido com isso, nem demonstrou interesse em recuperá-los.

3) Francisco Louçã exaltou a grande vitória que obteve pelo facto do BE ter sido o partido que mais subiu, mas esqueceu-se de referir que, face às expectativas criadas pelas sondagens e às metas que ele próprio estabeleceu, o 4º lugar lhe sabe a desilusão. Para além disso, os cinco deputados de diferença para o CDS não são coisa pouca, especialmente dado que o CDS faz maioria com o PS, e por isso poderá ter maior influência na governação, enquanto o BE não.

4) Jerónimo de Sousa e outros militantes do PCP insistiram na força da CDU por ter subido um deputado. No entanto, isso não esconde um facto histórico que, para eles, deve ser perturbante: pela primeira vez desde o 25 de Abril, a CDU é a 5ª força política. Face à descida do PS e ao maior número de votantes em relação a 2005, o CDS e o BE dispararam, mas a CDU não. Porquê? Era isto que gostava de ter ouvido Jerónimo de Sousa esclarecer.

5) Apesar da enorme descida do PS em relação a 2005, há um facto inegável: foi o Partido Socialista que ganhou as eleições. No entanto, que eu tenha ouvido, todos, à excepção de Manuela Ferreira Leite, se esqueceram de fazer essa simples constatação, que não teria ficado nada mal. O problema é que na política portuguesa paira a ideia de que congratular os feitos conseguidos pelo adversário é um sinal de fraqueza e de falta de convicção pelos seus ideais. A propósito, recomendo que se reveja o discurso de John McCain quando perdeu as eleições para Barack Obama, em que não só congratulou como elogiou o seu adversário (que, aliás, bem o merecia). Esse tipo de atitude é, de facto, comum nos Estados Unidos.

6) Membros da CDU e do BE disseram repetidas vezes que a perda da maioria absoluta por parte do PS demonstra que venceram a luta contra a política de direita. A lógica destas afirmações é muito difícil de entender: se, para estes partidos, o PS faz política de direita, então terão certamente a mesma opinião do PSD e do CDS. Ora, estes três partidos representam mais de 80% dos votos. Onde está, de acordo com a visão dos partidos da extrema-esquerda, a derrota da "política de direita"?

7) Alberto João Jardim disse que "o país endoidou" por ter voltado a dar a vitória ao PS, tendo em conta a má governação de José Sócrates ao longo destes quatro anos e meio. Jardim tem razão numa coisa: o país parece, em muitos sentidos, que anda doido. No entanto, o que AJJ se esqueceu de explicar foi a razão por que isso acontece. Os portugueses voltaram a dar a vitória a Sócrates porque, se este teve uma má governação, então pode dizer-se que Manuela Ferreira Leite teve uma péssima liderança à frente do PSD. Quanto aos restantes partidos, o populismo demagógico de Paulo Portas e o espectáculo circense de Francisco Louçã só funcionam, para a maioria das pessoas, como voto de protesto; já nas ideias da CDU, um partido que ainda vive há 50 anos atrás, cada vez menos gente confia. Por isso, sim, "o país endoidou", mas foi forçado a "endoidar" pelo facto da classe política em Portugal estar nas ruas da amargura.

8) Maria José Nogueira Pinto reagiu em tom de vitória aos resultados, dizendo que não via derrota em lado nenhum. Fiquei na dúvida: ou Nogueira Pinto pensava que ainda estava no Gato Fedorento, ou então que já estava nas autárquicas.

9) Existe, por parte de muitas pessoas, um discurso politicamente correcto e de uma certa superioridade moral que defende que votar é um dever. Algumas destas pessoas, a favor do voto obrigatório, vêem na abstenção quase um crime político. "Se não se gosta de nenhum candidato", afirmam, "então que se vote em branco". Em primeiro lugar, acho que o voto obrigatório é uma boa medida para o presidente Chávez, fã de democracias ditatoriais, implantar na Venezuela; em Portugal, prefiro ser livre de escolher se voto ou se não voto. Segundo, como é evidente, na prática é irrelevante a escolha entre a abstenção e o voto em branco/nulo. A única diferença seria, quanto muito, simbólica: a abstenção simboliza, para as pessoas que acham que votar é um dever, ignorância face ao que se passa na política (embora nunca expliquem por que não pode significar um cansaço total do sistema político e das suas pessoas), enquanto o voto em branco significa que se está informado, mas que não se gosta de nenhum dos candidatos. Desta forma, o voto em branco seria um voto de protesto, ao contrário da abstenção. O que me leva ao terceiro ponto: embora seja consensual que, na prática, o voto em branco é irrelevante, estas eleições mostraram que, ao contário do que muita gente apregoa, simbolicamente também é. Entre as 19h30 e as 23h30 do dia de ontem, fui mudando de canal entre a RTP e a SIC. Não ouvi, durante estas quatro horas, nenhuma referência aos votos em branco, ao contrário dos valores da abstenção, que mereceram comentários por parte de todos os partidos. Afinal de contas, para o bem ou para o mal, a verdade é que ninguém liga ao voto em branco.

10) Se o estado actual da política portuguesa é uma lástima, não me parece que o futuro verá melhores dias. Os comentários dos membros das juventudes partidárias que ouvi ontem e os cartazes que têm espalhados pelo país revelam claramente que a falta de ideias e a demagogica vão continuar na política durante muito tempo. Pior, muitos evidenciam já o pior defeito que pode acontecer às pessoas que se metem na política partidária: estão muito mais interessados em acenar que sim a tudo o que o partido diz do que em reflectir sobre ideias concretas. Num artigo relativamente recente, Miguel Sousa Tavares conta uma história interessante: "[um] repórter do Público (…) teve a genial ideia de ler a alguns deles [membros da JS] passagens do programa eleitoral do PS: os jovens socialistas ouvidos declararam apoiar inteiramente essas passagens. Só que elas não eram do programa do PS… mas sim do do PSD!". Enfim, como disse Medina Carreira há uns tempos, nenhum jovem capaz hoje em dia se mete na política. E com razões para isso.

Saturday, September 26, 2009

Gato Fedorento Esmiuça os Sufrágios

O Ricardo Araújo Pereira acertou em cheio quando, no primeiro programa Gato Fedorento Esmiuça os Sufrágios, começou logo por afirmar que este programa era muito semelhante ao do PS: "é feito por indivíduos que os portugueses conhecem há quatro anos e meio e a quem já acharam mais graça". Num programa dedicado a esmiuçar os outros, ficou bem começar com um pouco de auto-crítica, ainda por cima bastante acertada.

Quando o Gato Fedorento surgiu pela primeira vez, foi uma incrível lufada de ar fresco. Ainda por cima, creio que faço parte da geração que mais impacto sofreu com esta novidade no humor. Nessa altura, o fantasma dos programas de qualidade de Herman José já há muito desaparecera no horizonte, e a principal comédia que era feita estava concentrada numa série de tipos da SIC Radical que se limitavam a mandar umas quantas piadas repetitivas, previsíveis, cansativas e, consequentemente, sem piada nenhuma. Falo de pessoas como Fernando Alvim, Nuno Markl, Rui Unas, etc. E isto para não falar da típica comédia feita pelos canais generalistas, desde os Malucos do Riso aos Batanetes.

Neste contexto, surge o Gato Fedorento no programa Perfeito Anormal, programa que, aliás, não pontuava propriamente pela comédia de qualidade. No entanto, o pequeno tempo de antena que Nuno Markl e Fernando Alvim deram a Ricardo Araújo Pereira e José Diogo Quintela foi suficiente para perceber o potencial destes dois comediantes. Alguns dos melhores sketchs que eles produziram vêm mesmo dessa fase embrionária do Gato Fedorento.

Quando, finalmente, tiveram um programa só deles, foi um sucesso que não vale a pena estar descrever. O que importa referir é que, pouco depois de se ter iniciado a terceira série de sketchs, o Gato Fedorento meteu férias para mais tarde voltar num novo formato. Quando regressaram com o Diz que é uma espécie de magazine, pouca gente gostou, pelo menos entre os antigos fãs. Claramente que aqueles quatro tipos não tinham o mesmo à vontade para um programa deste tipo como para os típicos sketchs que costumavam realizar.

Então, começou a dizer-se que nunca devia ter sido abandonado o formato inicial. Talvez seja verdade, mas não deixa de ser uma crítica algo injusta. É preciso relembrar que, na altura da série Lopes da Silva, os próprios sketchs já começavam a soar a repetitivo, e muitos não tinham grande piada. A mudança de formato foi, na minha opinião, uma tentativa de reformulação do seu estilo de forma a poderem voltar a alcançar a alta qualidade humorística do início. Essa tentativa, está claro, falhou; mas penso ser algo injusto criticá-los por terem querido mudar de formato, pois, verdade seja dita, o formato anterior começava já a ficar gasto.

Apesar de tudo, o programa, junto com o seu sucessor (o muito idêntico Zé Carlos), ainda duraram algum tempo e, de alguma forma, tinham audiências, embora talvez de um público com características diferentes do inicial. Mesmo assim, a certa altura tiraram novas férias prolongadas, e voltaram agora com o Gato Fedorento Esmiuça os Sufários. Neste regresso, apostaram em mais uma mudança de formato, sobre a qual sentia alguma curiosidade, mas ao mesmo tempo tinha receio: até que ponto é que o Gato Fedorento conseguia fazer humor político de qualidade?

Em todos os sentidos, o novo programa surpreendeu-me. É muito mais refinado humoristicamente que os seus antecessores, é um formato inovador em Portugal (embora comum nos EUA), e tem sido um enorme sucesso de audiências. Claro que continua com imperfeições: algumas das "notícias" deveriam ter um trabalho humorístico muito mais cuidado (mas com um programa diário é normal que isso aconteça), Ricardo Araújo Pereira é muito mais bonzinho com alguns convidados do que com outros, e muitas vezes que aparecem Miguel Góis, Tiago Dores ou José Diogo Quintela, fica a sensação de que só estão lá porque têm que aparecer para fazer número. De qualquer forma, confirma-se que Ricardo Araújo Pereira é um humorista genial, que conduz brilhantemente o programa.

De qualquer forma, é importante referir que, de facto, os portugueses não estão habituados a um programa político deste género. O modelo de Jon Stewart já tem barbas nos EUA, mas em Portugal começou agora com o Gato Fedorento. Muitos afirmaram e continuam a afirmar, em particular o presidente Cavaco Silva, que o fez antes do primeiro programa, que é preciso ter muito cuidado quando se mistura política e humor. Esta tentativa de colocar a política num pedestal de forma a que, ao contrário de outros temas, não deva estar sujeita à crítica humorística, revela uma de duas coisas: ou a nossa incapacidade de nos rirmos com nós próprios, ou a nossa falta de confiança política.

Ou talvez ambas.

Teorias

No Gato Fedorento de há uns dias, passaram um video de uma analista política a analisar o debate de José Sócrates com Manuela Ferreira Leite. Defendia que, ao analisar um debate, não se pode focar apenas nas palavras, mas também nos gestos e nos pormenores de atitudes que nem ao diabo lembram.

Mas é particularmente espantoso quando refere que todos os estudos dizem que quando uma pessoa coloca as mãos numa certa posição banalíssima, significa que não está a acreditar no que lhe está a ser dito. Há várias questões que gostaria de colocar à analista: Porquê?; Quais estudos?; Como foram efectuados de forma a chegar a essas conclusões?; Qual é a seriedade deles?

O cepticismo é sempre essencial, mas especialmente quando há política à mistura, e algumas teorias obscuras das ciências sociais e humanas, assumidas como verdades que, a bem dizer, carecem de um suporte minimamente credível. A propósito, convém relembrar este video.

Sunday, September 20, 2009

Anti-Democracia, para Jerónimo de Sousa



Quando li este título no Público, fiquei chocado. Pensei que Jerónimo de Sousa se referia ao país das Caraíbas. Mas não. Anti-democracia é o que faz a câmara socialista em Cuba do Alentejo. Afinal o mundo pode continuar a rodar...

Thursday, September 17, 2009

como é possível dizer quando se está apenas a imaginar?






Esta notícia lembrou-me um excerto do livro que dá título a este blog:

Como tantas vezes fazia quando estava à espera do meu pai, a minha mãe mudara de roupa e pintara-se. O Sol estava quase a pôr-se e ficámos os dois a olhar para além das águas encrespadas.
- Há pessoas a lutarem além, a matarem-se umas às outras - disse ela, fazendo um aceno vago em direcção ao outro lado do Atlântico.
- Eu sei - retorqui, depois de perscrutar o horizonte. - Estou a vê-las.
- Não estás nada - replicou minha mãe, quase com severidade, antes de voltar para a cozinha. - Estão demasiado longe.
Fiquei a perguntar a mim próprio como poderia ela saber se eu as estava a ver ou não. Fixando ao longe os olhos semicerrados, pensara distinguir uma estreita faixa de terra no horizonte, sobre a qual figuras minúsculas andavam aos empurrões e encontrões e travavam duelos com espadas, como faziam nos meus livros de quadradinhos. Mas talvez ela tivesse razão. Talvez fosse só imaginação, qualquer coisa como os monstros que, de quando em quando, ainda me acordavam de um sono profundo a meio da noite, com o pijama empapado em suor e o coração aos saltos.
Como é possível dizer quando se está apenas a imaginar?

Saber responder a esta questão é da maior importância, e Carl Sagan procura encontrar-lhe uma resposta durante o resto do livro. Da mesma forma, defende que tal resposta deve ser ensinada às pessoas, e que a ciência tem um papel importantíssimo nessa divulgação. Na ciência e no método científico residem a resposta a esta pergunta.

Wednesday, September 16, 2009

os loucos que mudam o mundo

Como não vejo televisão, não costumo ter noção da qualidade dos anúncios. No entanto, sempre que vou ao cinema dou-me conta que, cada vez que lá vou, estão piores. Neste panorama importa, pois, recordar um dos melhores anúncios de sempre.

Tuesday, September 15, 2009

Com poder vem responsabilidade

A frase do título deste post é verdade para tudo na vida, inclusive (e sobretudo) para a política. O partido do governo e os principais partidos da oposição, por serem os mais influentes na apresentação de propostas e na elaboração das leis, têm mais poder, e como tal é necessário que sejam altamente responsáveis. Dos partidos mais pequenos, podemos conhecer as suas posições ideológicas, mas quanto a propostas concretas não estamos, de uma forma geral, muito informados. Grande parte do seu tempo de antena, na Assembleia e na comunicação social, é dedicado a criticar as propostas dos principais partidos, o que também é necessário em política.

O Bloco de Esquerda, tendo actualmente 8 deputados na Assembleia, é um desses partidos. Critica intensivamente os outros (focando-se no PS e no PSD), e conhecemos bem a sua posição quanto a questões ideológicas que estão muito em voga, mas não temos um conhecimento profundo de propostas concretas que defendem, não por não estarem disponíveis ao público, mas porque não são muito difundidas pela comunicação social e por o BE não ter influência suficiente para as colocar em prática. Enfim, um partido pequeno focado em criticar não precisa de ter uma grande responsabilidade, pois esta não é testada através de críticas e da opinião pública em relação a propostas concretas.

No entanto, o BE tem crescido imenso. Nas primeiras eleições em que participou teve 1,7% dos votos. Entretanto, foi subindo em todas as eleições, e é possível que nas próximas legislativas chegue aos 10% dos votos, e que mais que duplique o número de actuais deputados. Com isto, tornar-se-á a terceira força política. Terá mais influência, mais poder. E, com isso, exige-se mais responsabilidade. E essa responsabilidade vai ser testada, na medida em que as suas propostas vão começar a estar mais difundidas e a ser criticadas intensivamente pelos outros partidos e pelas pessoas em geral.

O primeiro teste ocorreu no debate entre José Sócrates e Francisco Louçã. O primeiro-ministro levou o programa do BE sublinhado e com as críticas preparadas a propostas concretas. O próprio Louçã ficou surpreendido com esta posição de Sócrates, pelo facto deste ter "dedicado este debate às suas perplexidades, dúvidas e angústias sobre o programa dum partido que é o Bloco de Esquerda". Possivelmente, Louçã achava que iria para sempre ficar imúne a críticas, e que esse direito seria exclusivo seu. Está enganado: a partir de agora, com a crescente influência que começa a ter, o BE será alvo de testes à sua responsabilidade. Vai ter que saber defender as suas propostas.

Estes debates esclareceram, aliás, duas coisas muito importantes: primeiro, Francisco Louçã não tem a mesma facilidade a defender-se de críticas que tem a criticar; segundo, o dirigente do BE afirma-se como estando à esquerda do PCP. Por exemplo, no debate com Manuela Ferreira Leite, Louçã defendeu que o sistema de saúde privado não deve existir de todo, enquanto Jerónimo de Sousa disse, noutro debate, que se o sistema público não conseguir satisfazer as necessidades de toda a população, devem ser feitos acordos com os hospitais privados para que se garanta o acesso de todos à saúde. Mais: nesse tal debate com José Sócrates, este leu o seguinte no programa do BE:

Devem ser eliminados integralmente todos os incentivos fiscais aos produtos privados de poupança para a reforma ou às despesas da educação e da saúde, nas áreas em que haja oferta pública.

Como o primeiro-ministro em seguida apontou, e bem, dado que há oferta pública em praticamente todas as áreas, as deduções que as pessoas fazem serão quase todas eliminadas, de acordo com esta proposta. Esta medida seria, como é evidente, gravíssima para a classe média. Francisco Louçã obviamente que patinou em cima de gelo a tentar defendê-la. A resposta não convenceu Sócrates e, aposto, para aí 90% dos portugueses. O que é natural: afinal de contas, estas propostas são de uma irresponsabilidade atroz.

É verdade que o futuro do BE parece áureo: tem crescido muito por ter vozes determinadas e com vontade; insiste nas chamadas causas fracturantes, que embora não sejam muito relevantes para um país que precisa de profundas reformas em áreas fundamentais, atingem muito mais facilmente o público alvo; é um partido muito querido entre os jovens, o que lhe confere alguma garantia de futuro; e irá em princípio tornar-se a terceira força política. Mas, a continuar assim, não conseguirá vôos mais altos, e coloco mesmo a questão de se, a médio prazo, conseguirá manter a votação que em princípio vai obter nas próximas eleições legislativas.

Agora, por ter mais influência, o BE será mais criticado e as suas propostas concretas começarão a espalhar-se mais rapidamente pelas pessoas, pelo que terá que demonstrar que é um partido responsável. E, nesse sentido, o futuro já não parece tão agradável: no primeiro teste a essa responsabilidade chumbou com péssima nota, e o radicalismo de Louçã está a tornar-se demasiado evidente. Como tal, é provável que, futuramente, as pessoas comecem a pensar duas vezes antes de votar no BE. "Louçã" e "responsabilidade" não só não rimam, como são quase antónimos.

Sunday, September 13, 2009

Richard Feynman e as Regras do Xadrez


Richard Feynman, para além de todas as suas características peculiares que já aqui enunciei, era também um professor espantoso, que recorria a comparações, metáforas e analogias fantásticas para explicar os mais variados assuntos científicos.

Deixo aqui aquela que é a minha analogia preferida de todas as que o ouvi usar: a forma como, aos poucos, os cientistas vão descobrindo as leis da física, assemelha-se à forma como descobririamos as regras de um jogo de xadrez se apenas de vez em quando tivessemos a possibilidade de olhar para a disposição das pessoas num tabuleiro ao longo de um jogo.

Saturday, September 12, 2009

Richard Feynman e as Ciências Sociais



A opinião de Richard Feynman sobre falar sem saber do que se fala, coisa que considera que acontece muito nas ciências sociais. Acho particularmente interessante quando ele afirma "I know how hard it is to get to know something". É realmente preciso muita coisa: é preciso imaginação para considerar as possibilidades; é preciso arranjar forma de as testar; é preciso que sejam sujeitas a testes altamente cuidadosos; é preciso que a teoria e a prática estejam plenamente de acordo.

De facto, concordo com Feynman: quando vejo muitos cientistas sociais a falar, tenho a sensação de que não passaram por nada para saberem aquilo que defendem; sinto que o dizem por intuição. Sem tirar mérito, claro, a alguns estudos essenciais levados a cabo pelas ciências sociais. O problema é que não há um mecanismo de detecção de erros como nas ciências exactas, e isso dá liberdade a algumas pessoas para dizerem o que lhes apetece. E contra isso, a única arma de defesa é o bom senso de cada um.

Wednesday, September 9, 2009

Richard Feynman e as Coincidêndias

A propósito de neste momento ser dia 09/09/09 e 09:09:09, lembrei-me de uma frase de Feynman sobre coincidências com números.

You know, the most amazing thing happened to me tonight. I was coming here, on the way to the lecture, and I came in through the parking lot. And you won't believe what happened. I saw a car with the license plate ARW 357. Can you imagine? Of all the millions of license plates in the state, what was the chance that I would see that particular one tonight? Amazing!

Afinal de contas, uma combinação é tão provável como qualquer outra. Mas uma sequência de 09's salta mais à vista.

Richard Feynman e as suas Lectures on Physics

Existe um livro de Richard Feynman que se intitula The Character of Physical Law, em que, ao longo de vários capítulos, aborda as mais variadas leis físicas e as suas aplicações. Tal livro baseia-se nas famosas Lectures on Physics que deu em Cornell em 1964. A Microsoft comprou os direitos de tais lições e, a propósito do Projecto Tuva, disponibilizou agora algumas.

Feynman é uma personagem sem igual no mundo da ciência. O seu contributo para a física teórica durante o século XX é extraordinário, e valeu-lhe até um prémio nobel. Foi ele o criador dos famosos Diagramas de Feynman. Era um homem muito divertido e com sentido de humor inigualável, como se percebe por estes videos e pelo seu livro Surely You're Joking, Mr. Feynman. Porém, no seu livro Nem Sempre a Brincar, Sr. Feynman mostra o seu lado mais triste. Tocava bongo como hobbie, mas foi um grande crítico do desprezo dos artistas pela ciência, dizendo que sempre que toca bongo em público, ninguém se lembra de dizer que também trabalha em física teórica, e que isso talvez seja porque "respeitamos mais as artes do que as ciências". E foi também um grande divulgador da ciência e do prazer de passar a fronteira do desconhecido para a descoberta de novos conhecimentos.

Portanto, uma pessoa única, cujas Lectures on Physics recomendo muito.

Saturday, September 5, 2009

outra vez C. P. Snow

Mesmo depois de 50 anos, o ensaio As Duas Culturas, de C. P. Snow, continua muito popular e frequentemente citado. O físico teórico Lawrence M. Krauss cita-o num artigo da Scientific American deste mês, intitulado C. P. Snow in New York. No seu texto, Krauss começa por comentar como a visão de Snow evoluiu para a actualidade:

Earlier this summer marked the 50th anniversary of C. P. Snow's famous "Two Cultures" essay, in which he lamented the great cultural divide that separates two great areas of human intellectual activity, "science" and "the arts". Snow argued that practitioners in both areas should build bridges to further the progress of human knowledge and to benefit society.

Alas, Snow's vision has gone unrealized. Instead literary agent John Brockman has posited a "third culture", of scientists who communicate directly with the public about their work in media such as books without the intervening assistance of literary types. At the same time, many of those in the humanities, arts and politics remain content living within the walls of science illiteracy.

Krauss explica este fenómeno por várias razões, entre elas a seguinte: scientific illiteracy is not a major impediment to success in business, politics and the arts. E acrescenta algo que me parece particularmente importante:

At the university level, science is too often seen as something needed merely to fulfill a requirement and then to be dispensed with. To be fair, the same is often the case for humanities courses for science and engineering majors, but the big difference is that these students cannot help but be bombarded by literature, music and art elsewhere as part of the pop culture that permeates daily life. And what's more, individuals often proudly proclaim that science isn't their thing, almost as a badge of honor to indicate their cultural bent.

Na segunda parte do artigo, Krauss aborda o sempre polémico tema da religião, dizendo que the Templeton Foundation (...) has spent millions annually raising the profile of "big questions", which tend to suggest that science and religious belief are somehow related and should be treated as equals. E, sem papas na língua, remata:

The problem is, they are not. Ultimately, science is at best only consistent with a God that does not directly intervene in the daily operations of the cosmos, certainly not the personal and ancient gods associated with the world's great religions.

Finalmente, o artigo termina assim:

Snow hoped for a world that is quite different from how we live today, where indifference to science has, through religious fundamentalism, sometimes morphed into open hostility about concepts such as evolution and the big bang.

Snow did not rail against religion, but ignorance. (...) the only vague notion of God that may be compatible with science ensure that God is essentially irrelevant to both our understanding of nature and our actions based on it. Until we are willing to accept the world as it is, without miracles that all empirical evidence argues against, without myths that distort our comprehension of nature, we are unlikely to bridge the divide between science and culture and, more important, we are unlikely to be fully ready to address the urgent technical challenges facing humanity.

Sublinhados meus.

Friday, September 4, 2009

Aprendendo a aprender...


Uma das áreas do conhecimento em que me sinto claramente deficitado é nas Línguas. A única língua estrangeira que domino é o Inglês, e de resto pouco conheço, mesmo superficialmente. Há pouco mais de um mês atrás, decidi que tinha de mudar isso, por duas razões: primeiro, porque no mundo actual, em que a comunicação entre países é cada vez mais importante, saber falar várias línguas é essencial; segundo, porque considero fascinante que se conheçam diversas línguas.

Como tal, fiz duas coisas: comecei a aprender alemão com um professor, e sueco sozinho. O alemão é uma língua muito importante, e como tal a razão por que a quero aprender parece-me que deve ser evidente. Já o sueco pode causar estranheza à maioria das pessoas. Afinal, apenas cerca de 10 milhões de pessoas falam sueco. É muito pouco utilizada fora da Suécia, e mesmo lá dentro o Inglês domina em muitas empresas. Por isso, reconheço, aprender sueco é mais um capricho meu do que uma necessidade prática. Mas, como o país me fascina como nenhum outro, como Estocolmo é um dos meus principais locais de eleição para continuar estudos, e como acredito que o conhecimento não tem que ser justificado pelo seu interesse prático, decidi começar a aprender a língua.

Contudo, todos sabemos que aprender línguas é um desafio gigante. Mesmo com um apoio constante por parte de um professor, a aprendizagem de uma língua não se faz num mês ou num ano. É, na verdade, um processo custoso e demorado que leva anos. Imagine-se, então, a dificuldade de se aprender uma língua sozinho. Mesmo assim, aceitei o desafio. Comecei por estudar utilizando um programa muito famoso, que diz utilizar as técnicas mais modernas de ensino de uma língua estrangeira. Não tem absolutamente nada em inglês ou em português a ensinar ou a explicar, apenas imagens e palavras em sueco. A chave para o sucesso é repetição, repetição, repetição, até que inconscientemente as coisas entrem na cabeça, ao compararmos as palavras com as imagens.

Passado umas semanas, embora consciente de que a aprendizagem de uma língua é um processo muito lento, achei que este estava a ser ainda mais lento do que devia. Na verdade, para além de umas palavrinhas soltas, eu não sabia absolutamente nada de sueco. Decidi, então, que tinha de mudar o meu processo de aprendizagem. Adquiri uma gramática, emprestaram-me um livro já com várias décadas chamado Teach Yourself Swedish, e pus mãos à obra novamente. Este livro, ao contrário do programa de computador que eu estava a usar, tinha comentários em inglês, que não só traduziam as palavras suecas, como também explicavam a gramática, a construção frásica, etc.

Surpresa das surpresas: passado vários dias, sentia que já sabia uma data de coisas de sueco. E desta vez a usar um livro quase da idade da minha avó, em vez de um programa que utiliza as tecnologias mais modernas! Mas a verdade é que conseguia construir frases simples e, usando as regras que me tinham sido ensinadas pelo livro, podia até adivinhar como se construiriam outras palavras e frases que ainda não tinha lido. Se tivesse continuado a utilizar o programa original, por esta altura continuaria eu desesperadamente à procura de alguma ordem e algum sentido no meio das palavras aleatórias que me iam sendo debitadas, tal e qual como alguém que anda às apalpadelas à procura de um interruptor, quando se encontra numa casa escura que desconhece. Não será melhor deixar que quem conhece a casa nos acenda a luz?


A fotografia do início do post é do interior da Biblioteca Nacional Sueca, em Estocolmo, tirada no dia 30 de Dezembro de 2008.

Wednesday, September 2, 2009

Politizações (III)

Um artigo da Única desta semana (29 de Agosto) sobre psicologia evolutiva e as principais críticas que lhe são dirigidas pela ecologia comportamental diz, numa secção denominada ciência vs ideologia, o seguinte:

Longe de ceder em alguma coisa, os psicólogos evolucionistas mudaram a batalha da esfera da ciência, onde o terreno é pouco firme, para a da ideologia, onde as fanfarronadas e os insultos podem ter bastante sucesso. Miller, da UNM, por exemplo, queixa-se que os críticos "convenceram uma parte substancial do público instruído de que a psicologia evolutiva é uma conspiração da extrema-direita" e lamenta que acreditar na psicologia evolutiva seja visto "como um sinal de conservadorismo, desagrado e egoísmo." Lamentavelmente, é por aí que a discussão tem passado. "Disseram os críticos que eles não passavam de marxistas motivados pelo ódio à psicologia evolutiva", diz Buller. "Essa é uma razão por que deixei de seguir a disciplina: a forma como a ciência está a ser conduzida é mais semelhante a uma campanha política."

É mais um exemplo de como a discussão que deve ser científica pode passar tão facilmente para uma discussão política sem relevância. Tenho, infelizmente, que concordar com o matemático e biólogo polaco Jacob Bronowski, quando afirmou: no science is immune to the infection of politics and the corruption of power.

Monday, August 31, 2009

Politizações (II)

Em 1996, a revista Social Text publicou um texto com o seguinte título: Transgredir as fronteiras: rumo a uma hermenêutica transformativa da gravitação quântica. No artigo, o seu autor analisava conceitos das ciências sociais, indo buscar conceitos das ciências exactas, usando-os da forma mais disconexa e sem sentido possível. Parte da sua argumentação baseava-se sobretudo em citações de filósofos e sociólogos célebres e, de uma forma geral, muito conceituados. O artigo foi aplaudido.

Passado um tempo, o seu autor revelou-se. Era Alan Sokal, professor de Física na Universidade de Nova Iorque. Aquele texto era, na verdade, uma paródia, que pretendia criticar o facto de muitos intelectuais das ciências sociais e humanas usarem e abusarem de conceitos das ciências exactas para dissertarem sobre tudo e mais alguma coisa.

Grande parte desses intelectuais, que Alan Sokal e Jean Bricmont (também físico) criticaram directamente no livro Imposturas Intelectuais, tinham formação nas ciências sociais e humanas, e defendiam quase todos o relativismo pós-moderno, em que a verdade não passa de uma convenção da sociedade. O discurso é sempre vago; vem não se sabe bem de onde, e não quer chegar a lado nenhum. Tem sempre um belo palavreado a disfarçar o vazio de ideias, e os conceitos que vai buscar às ciências exactas não têm qualquer relevância.

Acontece que a maioria destes autores são de esquerda. Então, o resultado foi o seguinte: muita gente viu o livro como uma crítica da direita em relação à esquerda, e daí retiraram as mais variadas implicações políticas. Mais um caso em que, em vez de se discutirem ideias, se quis resumir tudo a uma luta ideológica sem pés nem cabeça. Só vejo uma razão para se preferir teorias da conspiração deste tipo em vez de se contra-argumentar o que Sokal defende: ausência de ideias.

O mais irónico de tudo, e que acaba de vez com a discussão política da questão: o próprio Sokal é de esquerda.